ANO
Rio de Janeiro, junho de 1980 — Cr$ 30,00
Leitura para
maiores de 18 anos
da esquina
r três crimes
abalam a ,
comunidade
i guei
O aborto
segundo
Pasolini
O racha no
Somos
paulista
• • • Negros contra o 1 3 de Meio
****
APPAD *
associação paranaense
da parada da diversidade
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
I OPINIÃO \
O Aborto Segundo Pasolini
Eu sou pelo referendo em oito pontos do Par¬
tido Radical (pela liberação do aborto) e estarei
disposto a colaborar numa campanha, mesmo
imediata, a seu favor. Partilho com este partido a
pressa de que seja ratificado rapidamente: este é o
primeiro principio da democracia.
Contudo, sinto-me imumatnado pefa legis¬
lação que diz respeito ao aborto, porque a con¬
sidero, como muitos, uma legislação de homi-
cidio. Nos meus sonhos e no meu comportamento
cotidiano — e isto é comum a todos os homens —
eu vivo a minha vida pré- natal, aquela feliz imer¬
são nas águas maternas: sei que já existia lá.
Limito-me a dizer isto, porque, a propósito do
aborto, tmho coisas mais urgentes a dizer. Que a
vida é sagrada, é óbvio; é um principio ainda mais
forte que qualquer principio da democracia e é
inútil repeti-lo.
Contudo, a primeira coisa que quero dizer é a
seguinte: o aborto é o primeiro e único assunto
acerca do qual os radicais e todos os outros de¬
mocratas seus defensores, os mais puros e ri¬
gorosos, fazem apelo ao casuismo, recorrendo a
perversão cínica dos dados e do bom senso.
Eles, que sempre colocaram antes de tudo a
questão de saber quais são os verdadeiros prin¬
cipias a defender, desta vez não o fizeram.
Ora, como eles sabem perfeitamente, não há
um único caso em que esses verdadeiros prin¬
cípios coincidam com aquilo que a maioria con¬
sidera propriamente direitos. No contexto de¬
mocrático, luta-se, é certo, pela maioria, ou seja,
peto consenso de todos os cidadãos, mas acontece
que a maioria, na sua santidade, nunca tem
razão, porque o seu conformismo é por natureza
brutalmente repressivo.
Por que considero não -verdadeiros os prin¬
cípios pelos quais os * radicais e progressistas cm
geral baseiam, por conformismo, a sua luta pela
legalização do aborto?
Por uma série caótica, tulmutuosa e emotiva
de razões. Eu sei contudo, que a maioria já está
toda, desde já, a favor da legalização. O aborto
ftgal é de fato de uma enorme comodidade para a
maioria das pessoas. Sobretudo porque torna ain¬
da mais fácil o coito — a cópula heterossexual —
para a qual não haveriam mais obstáculos. Mas
esta liberdade de cópula para o casal — essa
maravilhosa permissividade — quem é que ta¬
citamente a desejou, tacitamente a promulgou e
tacitamente a fez entrar de forma irreversível, nos
nossos hábitos? A sociedade de consumo, o novo
fasdsmo. Apoderou-se das exigências de liber¬
dade liberais e progressistas, e, fazendo-as suas,
esvaziou -as e mudou sua natureza.
Hoje a liberdade sexual da maioria é, na
realidade, uma convenção, uma obrigação, um
dever social, uma característica da qualidade de
vida a que o consumidor não pode renunciar. Em
suma, a falsa liberalização do bem-estar criou
uma situação tanto e talvez mais absurda que
nos templos da pobreza: Vejamos.
I — O resultado de uma liberdade sexual
oferecida pelo Poder é uma verdadeira neurose
geral. A facilidade criou a obsessão, porque se
trata de uma facilidade imposta. Protege uni¬
camente o casal, e o casal acabou assim por se
tornar uma condição imperativa, em lugar de um
sinal de felicidade e liberdade, segundo as es¬
peranças democráticas.
II — Pdo contrário, tudo que é sexualmente
diferente é repelido, com uma violência só com¬
parável à dos nazistas nos campos de concen¬
tração. Em palavras, é verdade, o novo Poder es¬
tende sua falsa tolerância até as minorias (mais
cedo ou mais tarde as deixarão entrar na TV). De
resto, as elites são muito mais tolerantes do que
outrora para com as minorias sexuais. Em com¬
pensação, a massa tomou* sede uma «ítdertttiOB tão
rasteira, violenta e infame, como jamais acon¬
teceu na história deste país. O povo parece querer
esquecer, com a pobreza, a sua autêntica tolerân¬
cia. São essas massas, prontas à chantagem, ao
opancamaiio, ao linchamento, que — por decisão
do Poder — ultrapassam o antigo tabu clerical —
fascista e estão dispostas a aceitar a legalização
do aborto e daí a abolição de qualquer obstáculo
às relações do casal.
Todos, quando falam do aborto, abstêm-se de
falar daquilo que o precede, ou seja, o coito.
Omissão extremamente significativa. Não se pode
falar concreta e politicamente do aborto, sem
considerar o coito político. Não é possível ver no
aborto sinais de uma determinada situação social
e política, sem v-r os mesmos sinais no seu
precedente imediato — o coito.
O contexto em que deve inserir -se o problema
do aborto é bem mais amplo e ultrapassa a
ideologia dos partidos. O contexto em que o abor¬
to se insere é precisamente ecológico: é a tragédia
demográfica que se apresenta como a mais grave
ameaça à sobrevivência da humanidade. Neste
contexto, a figura ética e legal do aborto muda de
forma e natureza e em certa medida pode até jus¬
tificar -se uma forma de legalização. Qual o ver¬
dadeiro quadro que deveria inserir -se essa nova
forma do crime de eutanásia?
Ei-lo: antigamente o casal era bendito, hoje é
maldito. O motivo de todas estas coisas horríveis
que estou dizendo é claro: amigamente a espécie
tinha de lutar para sobreviver e por isso os nas¬
cimentos tinham de ser mais numerosos do que as
mortes. Hoje, pelo contrário, tem de fazer com
que o número dos que nascem não ultrapassem os
óbitos, se quer sobreviver. Antigamente, cada
criança que nascia, sendo garantia de vida, era
bendita. Hoje, cada uma que nasce, contribuindo
para a destruição da humanidade, é maldita.
Chegamos assim ao paradoxo de que antes o que
era antinatural é hoje considerado natural , e vice-
versa. Lembro-me de um crhico declarando que
as relações homossexuais eram inadmissíveis por¬
que erani iqúteis para a sobrevivência da raça;
ora, devia dizer na verdade o contrário: as re¬
lações heterossexuais è que representam um
perigo para a espécie.
Conclusão: antes do universo do parto e do
aborto, existe o universo do coito, e é este que
condiciona aqueles. O pior é que nesses últimos
dez anos apareceu a sociedade de consumo, novo
Poder falsamcme tolerante. Mas esse Poder não
está interessado num casal gerador de prole
proletária, mas de um casal consumidor e pe¬
queno burguês —dai a idéia da legalização. Não
me parece que os defensores do aborto tenham
posto isso em discussão.
A minha opinião, extremamente razoável, é a
seguinte: em vez de lutar contra a sociedade do
plano do aborto, é preciso lutar no plano de sua
causa, ou seja, no plano do coito. Trata-se de
duas lutas a longo prazo, mas ao menos a segun¬
da tem uma potencialidade infinitamente maior
de implicações.
Ê preciso lutar, ames de mais nada, contra a
falsa iGÉoãncia com a indignação que merece. E
depois, é necessário impor à facção mais rea¬
cionária deste pais toda uma série de liberali¬
zações autênticas no plano do coito. Bastava que
tudo isso fosse democraticamente difundido pela,
imprensa c sobretudo pela TV, para que o
problema do aborto se tornasse essencialmente
irrelevante, embora permanecendo um crinje, e
portanto, um dever de consciência. Será isto
utópico? Será loucura esperar que uma 'Auto¬
ridade" apareça nas telas de TV a fazer publi¬
cidade de técnicas amorosas "diferentes’? Muita
gente acusará meu artigo de ser pessoal, parti¬
cular e minoritário. E depois? (Pler Pado Pi-
sdinl )
»
(Resumo por João Carlos Rodrigues do artigo
publicado no Corrlere delia Sera em janeiro de
1975)
A palavra das mulheres
O aborto esta na ordem do dia. E não é para
menos, com as ameaças as mais variadas e disfar¬
çadas do Poder de assumir como programa ofiãal
o controle da natalidade e o planejamento fa¬
miliar. assuntos tio delicados quanto o aberto.
Por isso é importante que as mulheres discutam e
apresentem suas idéias em todas as oport uni¬
dades possíveis. Com a finalidade de contribuir
para esse debate a nível nacional, transcrevemos
abaixo trechos de uma conferência pronunciada
recentemente no teatro Casa Grande. Rio. por
Mary (Jarda Castro. doColctiwde Mulheres, in¬
titulada “Controle da Natalidade. Legaliiaçãodo
Aborto c Feminismo”:
“O femini:.mo postula o direito da mulher de
decidir sobre o processo de reprodução, o que ev
tara tão mais de acordo com os desejos de seu
companheiro quanto mais livre e afetiva for a
relação entre ambos. O feminismo è contra o
poder das instituições do Estado, da Igreja, do
saber constituído, isto é, da medicina, sobre o
m>sso a»rpo. nossa sexualidade. Reivindica, friso,
a separação entre sexualidade e reprodução. Sen¬
do o feminismo um movimento que visa a trans¬
formação social, ele tem uma série de reivindi¬
cações imediatas, como a legalização do aborto,
que são constituintes do movimento e que não se
esgotam ai
“ Defende-se o direito ao aborto dentro de
uma linha de conscientização e pelo exerdcio de
outros direitos: ao prazer, ao questionamento do
papel da mulher nas sociedades de cunho patriar*
calista, contra o caráter classista das leis e dos
poderes. Sabemos bem que com a legalização do
aborto continuaremos, por outras formas, a ser¬
mos manipuladas pelos poderes. Maior será esta
manipulação quanto mais baixo for o nosso nível
de conscientização desta dinâmica, quanto mais
pressionadas formos por condições objetivas de
adversidade e pobreza.
“ O Coletivo de Mulheres do Rio de Janeiro é a
favor da legalização do aborto, mas considera a
aprovação de uma lei num ponto de um processo
de luta. Preocupa-nos. neste sentido, a cam¬
panha. antes e depois da legalização do aborto, a
tomada dc consciência pda mulher de sua opres¬
são. a sua participação nesse processo. Para um
projeto novo são necessárias novas formas dc luta:
pela reflexão coletiva das experiências individuais
gera-se impulso e ação. A melhor lei sobre dirdto
. à concepção, contracepção e aborto será aquela
discutida, exigida e votada pelas mulheres.
*“ Para terminar, frisamos que nós. mu lho- es
feministas, somos a favor da lqgalizaçào do abor¬
to. do acesso á contracepção, do direito de termos
os filhos que desejarmos, na perspectiva não da
realização de melas polí tico- econômicas, de
defesa de determinados interesses de grupos no
poder, ou de um bem-estar de uma população em
abstrato, mas tendo como prindpio que. a cada
mulher deve ser dado o direito de decidir sobre
sua vida. Contudo, constata-se que a luta pelo
exercício desse direito exige o reconhecimento das
formas que assume nossa opressão e a perspectiva
de que é no dia-a-dia que &e vai gastando o fu¬
turo. o projeto da sociedade nova que se quer "
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LAMPlAO da Esquina
wv OaiS
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APPAD
associação paranaense
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Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
I REPORTAGEM]
Um roteiro turístico:
os buracos do Rio
Mulheres e Bichas
Gaúchas Invadem o
Movimento Estudantil
Desde o Império, o Rio de Janeiro sempre foi
considerado como um dos centros da badalaçâo
homossexual do Brasil. Talvez pela grande quan¬
tidade de lugares ao ar livre, os ditos buracos, on¬
de as bichas mais audaciosas sempre procuraram
saciar seus desejos carnais. A busca do prazer
nunca foi relegada a segundo plano, mesmo que
isso custasse umas boas cacetadas ou uma prisão
por vadiagem —isto se alguns contos de réis nlo
resolvessem o problema. Fazer pegaçâo nas terras
de Slo Sebastião do Rio de Jáneiro é algo mais
velho do que ser chamado de viado.
No inldo do século, a Praça da Republica,
mais conhecida como Campo de Santana, com¬
preendia uma área trés vezes maior do que a atual
demarcação, incluindo em seus jardins o Minis¬
tério da Guerra. Os extensos jardins ornados de
lagos e de grutas artificiais, ladeados de bancos e
de lampiões a querosene, eram frequentados ao
entardecer por galantes e nobres senhores e por
senhores nem tio galantes, e muito menos no¬
bres, que tinham em mente os mesmos propó¬
sitos: esperar a salda dos recrutas e. quem sabe.
conquistar um ou alguns para assim esquecer
seus problemas provincianos e ter alguns momen¬
tos de prazer.
Tais paragens eram intensamente frequen¬
tadas todos os dias, ao mesmo entardecer. Os
senhores que moravam com suas famílias e nio
possuíam lugares para levar os apetitosos man¬
cebos, dirigiam-se a um famoso beco das redon¬
dezas, conhecido pelo nome de Rua da Pouca
Vergonha, atualmente Rua 20 de abril, ou a nào
menos conhecida gruta do lugar, e lá realizavam
seus sonhas eróticos. Certo dia porém, vendo tan¬
ta sacanagem, um certo oficial do Ministério,
encarregado de policiar as redondezas do Campo
de Santana, resolveu acabar de vez com tais atos
pecaminosos e ordenou aos soldados de serviço
que prendessem iodos os pederastas que por ven¬
tura se encontrassem na regifto. Ao final de uma
semana, para espanto deste mesmo oficial, obser¬
vou que ninguém havia sido preso, e pelo con¬
trário, continuavam a esperar os jovens e a trepar
com eles pelas redondezas. Indignado, chamou a
equipe de serviço e indagou o porquê de nào ter
sido feita nenhuma prisão. Um dos soldados,
muito nervosamente, responde que era impossível
prendê-los, pois no que ameaçavam agarrá-los,
des saiam correndo, e segundo o mesmo soldado,
corriam mais do que veados. A partir daí passou a
constar da ordem do dia que todos os veados fos¬
sem perseguidos e presos.
Com o progresso, a cidade foi sendo am¬
pliada. novas ruas construídas c a paisagem
mudando rapidamente. O que resta hoje do
saudoso Campo de Santana sáo as pegaçôes Â
tarde feita pelos moleques que ainda frequentam
tais paragens. Em compensação, muitas opções
surgiram em seu lugar, desde a conhecidissima
Via Apia, até o mais recente buraco da rua da
Quitanda.
Situada na confluência das ruas Santa Luzia,
Av. Marechal Câmara, Av. Gal. Justo entre a
Santa Casa da Misericórdia, a Secretaria da
Receita Federal, o Museu Histórico e a Agência
Castelo do INAMPS, situa-se talvez um dos
maiores buracos de pegaçâo que o Rio de Janeiro
já tes*. a Via Apla. Surgida por volta dos anos 50
e numa área estritamente comercial e militar, a
Via Apia ou Pfcópttfs, para os mais antigos, tal
como Roma, teve seu grande auge e encontra-se
atualmente na fase de total decadência.
No período das vacas gordas, as várias regiões
deste complexo buraco encontravam-se sempre
superlotadas, e apesar das constantes investidas
da Tia Mlqulta (patrulinha) ou da Tia Qeide
(camburão) muitas orgias aconteceram. No nâo
menos conhecido Oirral das Éguas, em frente a
Aeronáutica, coberto antigamente por enormes
cartazes publicitários, todos trepavam as mil
maravilhas. Freqüentado basicamente por bichas
novas e com grande disposiçfio, propiciava festas
que só terminavam por volta das seis da manhã.
Para os que c uniam emoções mais fortes, nada
melhor do que arriscar uma ida até o Beco do
Chupa-Oiupa, que ficava nas colunas do prédio
do INAMPS. Lá a frequência era de bichas nin-
fomaniacas, que nâo se contentando com um só
parceiro, faziam rodinhas e pediam bis. Para os
mais recatados o programa era dar umas volti¬
nhas pelas travessas que ligavam o largo da
Misericórdia com o Museu Histórico. O resultado
normalmente era uma saída de carro. Mas a
grande atração era uma cena calçada em frente
á Avenida General Justo, onde um bando de
LAMPIÃO da Esquina
bichas, entre 15 e 18 anos, faziam seu encontro
diário para curtir um bom papo e marcar pro¬
gramas para o fim de semana. Era um bando
frenético, que nos períodos negros da década de
70, exorcizava a alienação promovendo desfiles e
brincadeiras, tal qual a molecada de rua. Para
eles, ser homossexual nâo passava de uma festa, e
na grande maioria das vezes dispensavam altas
transações para poderem participar das festi¬
vidades juvenis e curtir uma saudável bichice.
Nào era raro um ou outro soldado de plantio ali
perto convidar um dos garotos para dar uma
trepadinha.
Tempos bons aqueles, que segundo alguns
jamais voltarão. Hoje resta da Via Apia, ruas
vazias e bastante iluminadas e poucos sáo os que
se arriscam andar por estas bandas, pois a cres¬
cente onda de assaltos faz qualquer um perder o
tesão.
Considerado como uma das maiores atrações
turísticas do Rio de Janeiro, o Buraco da Mais»
permanece incólume apesar de sua longa existên¬
cia. Espremido entre enormes edifícios situado
entre as Av. Nilo Peçanha, Almirante Barroso e
Rua México, de dia abriga dezenas de carros de
grandes executivos e ao anoitecer transforma-se,
como por mágica, num recanto de amores e
prazeres.
Seus frequentadores, em busca de emoções
mais fones, costumam ffeqUentá-lo durante toda
a semana e quase sempre encontram o que
procuram, salvo quando sâo presos pela
policia que, num trabalho de anos e anos a fio,
oerca as trés saídas do recanto, distribui porradas
a trés por quatro e fatura alto.
Muitas histórias rondam os vários cantos es¬
curos do Buraco da Maba. Nâo se sabe ao certo
qual a origem do seu nome, mas tudo leva a crer
que haja uma profunda ligação com o sentimento
de fossa, que Malsa muito bem transmitia em
suas canções. Nâo é á toa que as pessoas clas¬
sificam as pegaçôes do Buraco da Maba de "fins
de noite", quando nâo há mais nada a perder
depds de uma noite de freqüentes insucessos.
O espirito feliniano sempre presente é refor¬
çado nos quatro dias de carnaval, quando uma
multidão fantasiada e muito louca, invade as
terras do prazer e compactua com as mais exó¬
ticas orgias carnavalescas. Outrora, ainda era
possível buscar esta mesma forma de prazer nas
•aragens do Buraco do Cauby, situado entre a Av.
Nilo Peçanha e a Erasmo Braga. Mas por motivos
alheios aos seus frequentadores, o buraco foi
fechado com enormes grades, restando aos mes¬
mos as pilastras situadas à sua entrada.
Como na natureza, os buracos do Rio também
usam c abusam da lei da compensação. Apesar da
decadência da Via Apia e da extinção do Buraco
do Cauby, surge um novo espaço: O Buraco da
Rua da Quitanda. Compreendendo as Ruas da
Quitanda, Carmo, Ouvidor, Rosário, Buenos
Aires, Alfândega, Candelária eTrav. do Ouvidor,
no quadrante entre Sete de Setembro, Pres. Var¬
gas, Rio Branco e l.° de Março, este novo buraco
pode ser considerado como sendo o segundo
grande lugar de pegaçâo do Rio de Janeiro, após a
Via Apia. Surgido há aproximadamente três anos,
sua frequência após as 22h é a das mais intensas
possíveis . Possuindo uma variedade de espaços e
de tipos físicos, segundo estimativas, deverá se
transformar num dos maiores pólos de pegaçâo
de rua de nossa tena.
Devido sua extensão e as várias saídas, correr
da policia se torna mais fácil. Ainda não se notou
nenhuma grande operação por aquelas bandas,
mas é bom ficar á espreita, pois como dizem al-
)guns: "a justa tarda mais nâo falta". Nâo é raro
ver -se marinheiros vigilantes, jornaleiros (que se
Teúnem ao lado da Igreja da Candelária), pes¬
cadores, porteiros e faxineiros noturnos fazendo
uma e outra pegaçãozinha. Tal um bom pro¬
grama para quem curte o proletariado.
Não se tem notícias de assaltos e curras pelas
bandas da Rua da Quitanda, mas não se deve
arriscar muito, pois quando menos se espera al¬
guma coisa pode acontecer.
Não é á toa que a cidade do Rio de Janeiro é
chamada de Cidade Maravilhosa !!! Nâo fosse a
bichice do Santo padroeiro e o grande contingente
homossexual, poder ia-se dizer que o slogan ao
ser criado nâo passava de um mero apelo pu¬
blicitário. (António Carlos Moreira)
O que os estudantes da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul queriam era muito pouco: a
livre entrada feminina na CEU (Casa do Estu¬
dante Universitário) de Porto Alegre. Esse sim¬
ples desejo (que se realizou finalmente no dia 2$
de abril, com uma festa de confraternização e um
debate sobre vários temas dizendo respeito di¬
retamente aos moradores da casa) despertou no
entanto a ira e a truculência do reitor Homero Sá
Jobim, homem acostumado aos velhos tempos do
autoritarismo. O reitor nâo só ameaçou os es¬
tudantes com a polícia militar e seus cães, como
também com intervenção de tropas federais, ex¬
pulsão de líderes do movimento (que não tinha
líderes: todas as decisões eram tomadas por con¬
senso e a luta foi travada por quase todos os
moradores) e, no melhor estilo caudilhesco, o
professor Jobim chegou a dizer que se os estudan¬
tes queriam fornicar com suas colegas que fossem
para a praça em frente.
Tudo começou quando uma turma de moças
universitárias (transformado a seguir em Grupo
de Mulheres Estudantes) resolveu saber por que
estavam impedidas de passar da cantina da CEU
para os andares superiores. Os rapazes lhes ex¬
plicaram que um regulamento, de 1971, vetava a
entrada feminina na casa, inclusive de mães ou
irmãs. As únicas mulheres com acesso eram as
faxineiras e uma assistente social, assim mesmo
observadas de perto pelos guardas. Conta Rua,
um estudante de Geologia:
— Nós nâo podemos sequer sentar nas camas
durante o dia, para nâo desarrumá-las. Nossas
assembléias nunca tinham mais de oito mora¬
dores. O clima era de tensão. Todo o regulamento
visa a reprimir ao máximo, principalmente no
terreno sexual. O que estava acontecendo ali era
uma verdadeira deformação social .
Dunga, estudante de teatro, interfere:
— A rapaziada vivendo na CEU desaprende a
conviver com mulher. Eu sou um dos moradores
mais antigos, mas sempre me defendi como pude.
Transo quase todo o tempo fora da casa, tenho
muitas amigas, e lá dentro impus minha condição
de homossexual e ninguém se mete comigo. Ao
contrário, eles querem até me protejer, coisa que
eu dispenso, né?
— O Dunga é o único certo aqui — diz Dinah ,
estudante de Matemática.
Esta conversa se passou no dia 26 de abril, an¬
tes portanto da tomada da casa, na Livraria Com¬
bate, no centro de Porto Alegre. A cantina
da CEU, ponto de reunião de estudantes de todas
as faculdades, transformou-se de repente num
centro de ativismo feminista quando as moças se
deram conta de que estavam não só vivendo como
colaborando para a manutenção de um regime al¬
tamente repressor e machista. Muitas delas sâo
namoradas dos rapazes da casa e, através de um
trabalho lento e persuasivo, acabaram por trazer
para a sua causa o conjunto dos moradores.
— Quando começamos a fazer as nossas as¬
sembléias conjuntas para tratar da invasão da
casa pelas mulheres, os homens ficaram ansiosos
e inseguros, conta Dinah. Eles pensavam que nâo
sabiam tratar direito as mulheres. Faltava-lhes
naturalmente uma estrutura de relacionamento
feminino e achavam que nós nos sentiríamos in¬
sultadas se nâo fôssemos tratadas como senho¬
ritas.
O grupo de bichas que mora na casa foi o que
mais se entusiasmou com a revolução que estava
se armando. Dunga liderou seu grupo como pon¬
ta de lança do movimento, ora ajudando as
mulheres, ora ensinando os homens a não perder
as estribeiras diante da invasão. Isso levou alguns
heteros impedem idos a se perguntarem qual era o
proveito que as bichas iram tirar dessa invasão.
Dunga é sem dúvida a figura mais popular da
casa e enquanto as feministas o aceitam com a
maior naturalidade, os rapazes têm as mais
variadas reações.
— Os reacionários isolam os homossexuais e
nâo querem a presença de mulher na CEU —ex¬
plica Rua, que é namorado de Dinah (é uma
graça). — Sâo eles que ficaram mais perplexos
com a atitude entusiasmada das bichas com a
nova situação.
— As pessoas se preocupam muito mais
comigo do que eu mesmo — afirma Dunga. Nos
murais da casa estão sempre falando em mim. Eu
sou homossexual por todos os outros. Todas as
notas falam em mira. Quando estflo sem inspi¬
ração ou não têm o que dizer, lá venho eu: **E o
Dunga vai bem, obrigado".
Quando Dunga resolveu aparecer na CEU
com um casinho a tira-colo, abateu-se sobre de
uma verdadeira tempestade de ciúme. "Esse
ciúme chegou a níveis insuportáveis, como se eu
fosse propriedade deles.** Ainda no que toca ás
bichas, quando começou a campanha feminista
pela invasão da casa, uma das primeiras palavras
Je ordem surgida no mural foi "Abertura para os
homossexuais." Quer dizer, já eram todos os
pequenos grupos e as mais variadas tendências
que começavam a falar.
Dinah conta que um dos trabalhos realizado
pelo grupo misto que lutou pela "feminizaçâo" da
Casa do Estudante foi uma estatística sobre
sexualidade entre os moradores. Resultado: 90
por cento deles já tinham praticado o homose-
xualismo. Infelizmente a estatística não entrou
em maiores detalhes para saber onde, como c
quando. Com o correr da campanha, conta
Dinah, a sexualidade foi assumindo um papel
cada vez mais importante. Numa das últimas as¬
sembléias os participantes chegâram à conclusão
unânime de que 'Ioda a relação que se aprofunda
acaba sempre na cama.” Com isso já se pode ver
que os rapazes estavam bem menos tímidos.
— Mas tímidos eles «une a foram, apenas
enrustidos — diz o venenoso Dunga. — Nos
bailes masculinos que nós fazemos dentro da casa
tem sempre tama gente que temos de sair dos
quartos para o corredor. E a coisa foi felizmente
tão longe que a nossa comunidade passou a dan¬
çar entre si também fora da casa, onde há mu¬
lheres.
— Ê, eles dançam bastante com a gente, in¬
tervém Dinah, mas acabam sempre entre eles.
Tem de tudo, até beijo na boca.
Foi por isso que. após a invasão, pacifica,
diga-se de passagem, os temas debatidos pela
primeira assembléia mista da Casa do Estudante
Universitário da UFRGS foram: 1) homose-
xualismo, 2) prostituição, 3) questão da família c
4) questão da mulher.
Depois dos debates, com muito chimarrâo e
caipirinha, chegou-se ao ponto crucial de toda
aquela luta, ou seja, os quartos dos moradores,
como observou muito bem o jornal "Zero Hora".
Eles foram abertos e as visitantes entraram.
(Francisco Bittencourt)
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GRUPODIGNIDADE
PORTO ALE6RE
IVIOLENCIAt
*
A morte de “Luisa Felpuda
99
surpreender, se esle garotáo for absolvido?
“Espero que alguém faça uma
matéria sobre o brutal crime de que foi
vítima “Luisa Felpuda”, pessoa
querida nesta cidade. Os jornais en¬
cheram manchetes com o “assasinato
dos irmãos homossexuais”, sabendo-se
que o irmão de Luís era um excepcional
de vida semivegetativa que só sabia
obedecer ordem , como um robô.
Volto a frisar que urge uma matéria
sobre o assassinato da “Luisa Felpu¬
da”, pois a imprensa daqui está fazen¬
do um escândalo e envolvendo todos os
que puderem, já citou nomes de ho¬
mossexuais importantes. Um detalhe:
não se trata da velha história que só
depois de morrer o sujeito era bom. A
“Luisa Felpuda”, realmente, era uma
boa pessoa e uma prova é que tratava
do seu irmão com extremo carinho, dis¬
pensando-lhe atenção, brincando com
ele, enquanto tantas outras pessoas, —
às vezes pais — , o internariam numa
clínica e ponto final. IVfárdo André
Peierson” — Porto Alegre (07.05.80).
Um mlché, ex -soldado do Exército, chamado
Jairo Teixeira Rodrigues, de 19 anos, teria assas¬
sinado na madrugada de 30 de abril, em Porto
Alegre, o homossexual Lu is Luz ardo Corrêa, de
58 anos, e seu irmfto Luidoro Luzardo Corrêa, de
60 anos. Com uma rapidez pouco habitual em
sememelhantes casos, a policia (2.* DP) gaúcha
demorou apenas ce^ca de 48 horas, para des¬
cobrir e prender o presumível assassino. Por coin¬
cidência... as vitimas eram sobrinhos do Em¬
baixador Batista Luzardo.
Em confissão, Jairo declarou sua intenção de
roubar; apanhando em flagrante, matara os dois
irmãos com requintes de sadismo, castrara o Luís
e tentara incendiar a casa.
PROFISSIONAL DO SEXO
Jairo, mlché de profissão e biscateiro, fre¬
quentava a casa de Luls, para transar com clien¬
tes homossexuais, aos quais cobrava alto.
Quando, na noite de 29 para 30 de abril,
chegou para trabalhar, teria levado uma cantada
de Luis. Aceitando, fez seu preço e transaram.
Mais tarde, aproveitando uma ida de Luls ao
banheiro, Jairo teria começado o saque: anel,
relógio, dinheiro. Foi flagrado. Abateu os dois ir¬
mãos com golpes de uma enxada, castrou o
quase -cl tente, fez a casa pegar fogo, frigiu.
LOCAL DO CRI ME
O velho casarão fica no número 525 da Rua
Barros Cassai, em Independência, Porto Alegre.
Laba Felpuda, nome artístico do Luis, vivia com
seu irmão, e cinco cachorros de guarda. Era im¬
possível entrar sem ser notado
A casa funcionva como rendez-vous de bichas,
que pagavam oitenta cruzeiros por quarto, para
uma trepada mais segura e discreta. Entre os
frequentadores habituais, estavam conhecidos
nomes de empresários gaúchos, políticos locais,
turistas do Prata. Muita gente colunàvel e “res-
peitável”, que tremeu com o crime e terá pres¬
sionado para a imediata descoberta e prisão do
presumível assassino.
Lu» Luzardo Corrêa, a “Luisa Felpuda
Segundo alguns, Luis, que era fiel aposentado
do Porto de Porto Alegre, repartia a casa para
completar sua reduzida renda; segundo outros,
era rico, tinha vários apartamentos, emprestava
dinheiro.
Poucos viados famosos nunca terão ido à
Mansão da Tia Velha, por cuja porta, noutros
tempos, passava o bonde da Carris. De qualquer
modo, curiosamente, sumiu a famosa agenda de
trabalho do angariador: muitos são os enrustidos
que podem dormir mais tranquilos.
TELEFONEMA ANÓNIMO
Durante as investigações policiais, foi rece¬
bido um telefonema anônimo, afirmando que o
anel roubado era falso: o verdadeiro, de brilhan¬
tes, estaria penhorado na Caixa Econômica
Federal. Parece claro que outras pessoas estão
metidas neste rebu.
AFINAL, A HERANÇA
Apenas alguns dias depois do crime, apareceu
um tal senhor Manuel Bento Luzardo, de 52
anos, tio da ‘Telpuda", reclamando a fortuna
deixada pelo sobrinho. Justificando seu tardio
aparecimento, afirmou que todos condenavam o
comportamento da bicha e por Isso não ligaram
para a noticia de seu assassínio.
SUSPEITOS E TRAVESTIS
o fruto de seu roubo (um and de fantasia, um
relogio e cerca de dois mil cruzeiros em dinheiro).
\
UMA VELHA ESTÓRIA
Acompanhado de seu ad>ogado. Nei Soares
de Oliveira, o criminoso confesso passou a se
comportar fnamente. sem emoçào. desapaixo-
nadamente. Profissionalmente???
Para Nei. a morte foi bomlddlo e não la-
trodnkx não houve agiotagem, nem uso de faca,
nem empalamenfo. Apenas la Iro matou em um
momento de forte emoção. Ele nem mesmo testa
negar o crime. E um rapaz calmo, dòcfl, delicado.
Temos de redis t riba ir a culpa com a sociedade O
doutor vai defender a tese de pressões familiares e
desequilíbrio mental, em juri popular.
Jairo, que se diz vitima do ambiente familiar,
afirma que até tentou o suiòdio. após seu preten¬
so crime. Teria conhecido "Luisa Fdpuda"
durante o serviço militar, na Praça da Alfândega
e no cinema Imperial. Depois disso passara a
trabalhar no rcudez-vom. como prostituto,
cobrando de duzentos a quinhentos cruzeiros por
trepada.
Imediataraente antes do crime, transando
oom o patrão, Jairo teria se mostrado impotente,
causando com isso a briga que levaria ao duplo
assassinato.
Disciplinadamente, o jovem nidie só fala
após consultar seu advogado. Tudo muito oer-
tinho. muito amimadinho. Muito preparadt-
nho???
VERDADEIRO MACHO
"SÔ ENFERMEIRO"
Assustado oom o boato de que o assassino
seria um travesti. Joel Borges da Silva, enfermeiro
e travesti que usa o nome de Jnelma. apresentou-
se dia 2 na Delegacia de Homicídios, acompa¬
nhado de seu advogado. Cláudio Brito. Disse
nada ter a ver oom o duplo assassinato, e que. no
dia do crime, deixara o bordel às sete e mda da
noite, como sempre fazia, após seu trabalho
diário como enfermeiro de Luidoro. que sofro>a
derrame e enfarte e de quem cuidava desde 1976.
O jornal "Folha da Tarde" porém, logo in¬
formava que Joelma administrava os bens de
"Luisa Felpuda" (cujo dinheiro seria guardado
em casa) e gerenciava o rende- vou z
Simultaneamente, a policia desmentia ter
havido castração ou empalamento, no crime, en¬
quanto o Instituo Médico Legal anunciava que am¬
bas as mortes foram devidas a hemorragia ce¬
rebral consecutiva a múltiplas fraturas dos ossos
do crânio.
DINHEIRO E APÓLICES
Dia 7 de maio. o jornal "Zero Hora" publi¬
cava várias denúncias de Jodma: que o anel
devolvido não era o que Luis usava no dia do
crime: que o morto tinha mais de dois milhões de
cruzeiros em apólices de seguro de vida. salvas do
fogo; que a "Felpuda" emprestava dinheiro a
juros a base de dez por cento. Simultaneamente,
o delegado Valnei. encarregado do inquérito,
deixava transparecer que não acreditava que só
tivesse um matador, nem que Luidoro. doente,
ftv esse reagido, como afirma Jairo.
Valnei. que negou o propalado uso de uma
enxada como arma do crime, não escondeu estar
pensando em solicitar a prisão preventiva do
niichê. ainda em Uberdade.
TERCEIROS
Segundo Joelma, nenhum cliente estaria na
Casa de Luís. no começo da noite do crime. De
acordo com a versão do presumível assassino,
porém, lá estavam três homens, um dos quais
seria uma bicha conhecida por Júlio. A acreditar
em Joelma, Jairo e Júlio seriam bons amigos, sen¬
do que este último tinha o hábito de dar dinheiro
ao bofe.
O travesti-enfermeiro já revelou alguns fre¬
quentadores famosos do bordel; entre outros,
segundo a "Zero Hora", estariam um ator c um
carnavalesco.
O PAPO DE SEMPRE
Dia 8 de maio, ao mesmo tempo que a policia
tornava público que o relógio não tinha sido
apenas roubado, mas violentamente arrancado do
pulso de Luls, o doutor Nei gritava: Jairo é mi
das vitimas da sida depravada de ‘Usa Fel¬
puda'', que mantinha um bordel de vido, e
corrupção, arruinando a vida texual de centenas
de jovens, levando-os à depravação. Estava final-
mente montado o cenário habitual: o culpado do
crime teria sido o morto. Uma tentativa de re¬
petição do escandaloso julgamento que absolveu
Doca Street? Tudo leva a crer que sim.
VERGONHA OU HIPOCRISIA?
Só na tarde do dia 7, acompanhado de um ad¬
vogado, apareceu na DH um parente dos assas¬
sinados, Manuel Bento Luzardo, para receber os
pertences dos mortos. Recusou falar à imprensa e
disse ser representante de todos os parentes, fun¬
ção atribuída por conselho de família.
GENTE FINA...
"Luisa Felpuda" fornecia o mlché. quando
necessário, e alugava os quartos aos viados
gaúchos. Para os mais afortunados, mediante
uma grana mais alta, havia quarto com geladeira,
música, refrigeração e lençóis coloridos. E bebida
à vontade, por conta da casa, enquanto se es¬
perava vaga .
Todos os hóspedes eram recebidos pessoal-
mente pelo proprietário, a quem a bicharada
dedicava um carinho especial e chamava de Ha
Vdha. _
Página 4
Fernando Lacerda Noronha, vizinho dos ir¬
mãos, teria sido a primeira pessoa a se aperceber
do fogo, que tentou apagar com um extintor que
transportava; auxiliando-o nesse tarefa, um rapaz
não identi ficado: Jairo???
Mas. no dia seguinte ao crime, a policia afir¬
mava que o principal suspeito era um travesti. No
día2 de maio. porem, a Delegacia deHomiddios
informava que apontava para Antônio Carlos
Vorlar. vizinho das vitimas, que chegara a ser
detido.
Na manhã do dia 2 de maio. Jairo se apresen¬
tava na 2? DP. confessando o crime e devolvendo
Jairo enfatiza, em todas as suas declarações,
que e homem e macho. Que o ambiente de tra¬
balho era bom. na Mansão da TU Vdha. Que
sempre sentia nojo. quando trysavu com viados.
Que nunca deu e sempre comeu. Por outras
palavras, está muito preocupado em provar que
não é bicha. Um papo furado que só poderá en¬
ganar os que não conhecem o mundo dos putos.
Dai a acusar os outros homossexuais, de
serem responsáveis pôr tudo de mau que lhe
aconteceu na vida. todos sabemos por experièn-
cia, vai um passo bem pequeno. Alguém vai se
i» .1*» . v. vs ^ .*vi doh * • vi xdxjjfr* • yi.t>
O tio envergonhado não deixou de acusar
Luls : Eu quase nunca o via, nem o vfeltava, pouco
posso falar sobre ele. Mas adianto, que não
aprovava seu modo de vida...
Além de Manuel Bento e do Embaixador
Batista Luzardo, foram divulgados os nomes dos
outros parentes ausentes por vergonha: Mário
Luzardo, Zélia Luzardo Masia, Hermes Bento
Luzardo, Brigido c Aristóteles Luzardo, e João
Batista Luzardo.
LAMPIÃO da Esquina
, ...
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A QUESTÀO DOS TÓXICOS
O defensor de Jairo, doutor Nei, acabou
desencadeando uma campanha difamatória,
anunciando que o consumo de tóxicos era ha¬
bitual no bordel. Porém, anteriormente, o
próprio assassino presumível declarara que ja¬
mais se drogara e que isso não acontecia nunca no
rendez-vous; reforçando e confirmando decla¬
rações de Jodma, o miché informara que o Lub
não bebia, nâo fumava e nio se dopava.
Aliás, essa é uma constante, entre quanto se
diz e escuta no meio homossexual de Porto
Alegre: nfto havia drogas na casa da ‘Telpuda”.
CAÇA AOS HOMOSSEXUAIS
Misturando tudo, o doutor Nei passou a
pregar, de fato, uma caça ás bichas, cujos resul¬
tados nio devem se fazer esperar. Vejamos um
pouco da prosa arrasoada do ilustre advogado: A
vida p regre»* da vitima tinha etapa* que vio
desde a Iniciaçfto de menores no homossexualis¬
mo até as festas de embalo onde os tóxicos eram
uma constante.
Num caso desta natureza, será preciso saber
quem era a vitima e quem é o autor. De um lado,
a vitima se constituía uma sacerdoüza que ini¬
ciava seus servidores na prática de aberrações
sexuais. E nio se pense que o homossexual é nm
demento delicado e avesso á violênds. Ele pode
aparentar dodlidade, mas é violento. Basta dtar
a quantidade ftacrtvel de ocorrências envolvendo
travestis, que se munem de facas, giletes, na¬
valhas e séo violentos até na hora da prisão. O seu
Lais Luz ardo Corrêa, a ‘Lulsa Fdpuda”, é de
dominlo púbico que mantinha uma casa que era
considerada um templo sagrado, onde a de¬
pravação, a corrupção e as aberrações sexuais
eram permaneate tônica doa relacionamentos.
“Lulsa Felpuda”, na sua vida depravada, deve ter
arruinado a vida sexual de centenas de jovens,
menores, cujs formação não era férrea. Portanto,
qoem semeia vento, colhe tempestade: aquele
que, ao longo de vários anos, espargia violências,
corrupção, angústia, depravação, teve um fim
trágico mas nio surpreendente.
feiro é uma das multas vitimas de 'liilsi Fel¬
puda”, pelos danos morais causados peio sado-
masoquista á sociedade atual.
Quis o destino que a purificação da sociedade
se fizesse através de um menor, religioso e exmcer-
badnmente responsável, poés sua conduta se jus¬
tifica quando 'Loba Felpuda”, após o uso de
tóxicos, tentou inverter o relacionamento sexual.
Se Jairo aceitasse, mediante pagamento, seria
mais um praadtuido pelo desespero que esta
sociedade Injusta oferece a uma geração. Se for¬
mos buscar as causas remotas da morte de “Luiza
Felpuda”, há de se reconhecer que seus j
tão justificados.
AS TESES CIENTIFICAS DO DOUTOR NEI
O jovem advogado, aliás muito bem apes¬
soado e de excelente visual, continua em sua
cruzada anti-freudeana, em vcrborréias como es¬
ta: Quanto no ambiente nio há dúvidas: eram
festas de embalos, frequentados por aleijões
sexaak que buscavam aquele ambiente para
Hbernr sua depravação, deformações, sua miséria
de seres humanos.
Aquilo lá servia para a prática de toda a es¬
pécie de vicio. Era um pequeno boapido dotnl-
fle safes, prostitutas e toxicómanos. Estes eram oa
fieqhrnt adores do local, um peraéctoso bordel.
AM, muitos menores eram iniciados na prática
homossexual e esta i
tem que cobrar do passado <
embora esteja morto.
ALGUMAS CONCLUSÕES
Perante este espantoso quadro, aterrador, mil
e uma conclusões podem e devem ser tiradas des¬
de já. Tentemos algumas.
Tudo se prepara para que Jairo, assassino
oficialmente confesso, seja julgado por um Júri
Popular c, apelando para o mais piegas sentimen¬
talismo, seja absolvido: isto se, entretanto, ele
não for dado como doente mental .
Se houve mais envolvidos no assassínio,
parece que ninguém vai se preocupar em os des¬
cobrir. E a herança, como fica?
“Luisa Felpuda”, assassinado, acabará sendo
apontado como culpado de sua própria morte. E
os parentes hipocritamente envergonhados, vão
calar?
Os travestis, pelo simples fato de serem
trávèsfis, são mais úma vez apontados como os
pre fld à sua modéstia e simplicidade, qualidade
•Más da sua melhor fé e formação cristãs (Lem¬
bro-me vagam cate da estampa de um Sagrado
Coração numa das paredes).
Conheci-a então e á sua casa de encontros mas¬
culinos há oito anos atris, por Indicação de um
caro amigo de Porto Alegre. Quando entrei no seu
living, ela estava com outros dois senhores (pos¬
sivelmente um deles fosse o seu Irmão, também
assassinado): todos de olhos grudados a televisão,
novela das dez. Senti-me Imediatamente um Im¬
portuno naquele ambiente de recolhimento, mas
mesmo assim apresentei -me, citando o nome des¬
se amigo (um nome que abre todas as portas de
Porto Alegre!) e, como resposta recebi um sorriso
e um gesto em direção a uma cadeira. “Sente-se
por favor. No próximo comercial conversare¬
mos.” Ot outros mal me olharam, preferindo •
loná Magalhães. Logo após durante os comer¬
ciais:
_ O Senhor velo só?
_ Sim, mas o meu amigo disse que o senhor
teria aqui...
_ Tenho sfem. Mas agora é tarde, todos foram
embora. O senhor compreende: alguns dos ra¬
pazes moram longe e acordam cedo; e outros,
quando nio chega logo nm cliente, vio encontrar
as namoradas. Querendo, providencio para
amanhã.
Voltei na noite seguinte, pruden temente mais
cedo (durante a novela das oito) e encontrei, con¬
forme o combinado, vários rapazes Igualmente
concentrados á volta da tevé. Escolhi e aconteceu
o normalmente previsto. Mas o ambiente, os
odores, ot móveis, os ângulos misteriosos do
quarto iluminado por uma luz vermelha, e a
própria situação que deveria ser constrangedora,
reconheço que foram muito excitantes, apesar dos
diálogos da novela, que vinham da sala ao lado,
fizerem o possível para cortar toda a onda de
erotismo.
Na segunda vez que visitei Luiza Felpuda (às
oito da noite) ela me cumprimentou peia entrevis¬
ta Inteligente que a Tanta Carvalho havia fefco
comigo naquela tarde. Agradeci em meu nome e
da Tânia, escolhi a pessoa, tomos levados pura •
mesmo quarto contíguo à sala (deveria ser o das
personalidades...) e, como da vei anterior, foi
como se o elenco danovda estivesse dehado
'comigo na cama, tão ako eu ouvia suas vozes. A
no v dl a evldent emente era outra porque haviam se
passado dob anos. E Luiza Felpuda progredira
na vidas a teve era a cores, creio até que com con¬
trole remoto. (Darcy Penteado)
Jairo, miché e assanho confesso
primeiros suspeitos.
Joelma, enfermeiro de Luidoro, não recusou
dedurar os nomes de vários frequentadores fa¬
mosos dorendz-vous.
A grande imprensa, o rádio e a TV gaúchos,
além de darem honras de herói ao miché Jáiro,
tiveram um comportamento sensacionalista,
difamatório e profundamente lamentável.
Os homossexuais, todos os homossexuais,
foram apontados tomo criminosos potenciais, de
altíssima pcriculosidade social, merecendo prisão .
e/ou tratamento psiquiátrico.
Travestis, prostituição, tóxicos e homosse¬
xualismo foram metidos num mesmo saco de
anormalidade e criminalidade, a exigir feroz
repressão médico-policial .
As bichas de Porto Alegre vão passar um mau
bocado. Já reagiram, realizaram alguma gestão
em defesa de quantos fizeram, fazem ou farão a
opção homossexual? Que estão esperando?
A guerra foi desencadeada, contra nós.
.Vamos nos preparar para a luta. (João Carneiro)
RECIFE:
“Bamba”
assassinado
“Esse quadro estarrecedor, mais
uma vez, acontecido com um de nossos
irmãos. Fruto puro, para náo dizer
pútrido, do nosso sistema criativamente
machista, onde bicha tem mais é que
Réq\
juiem para
Luiza Felpuda ,
depois dos
nossos comerciais
PWo Alegre perdeu uma das figuras mula
curiosas do mu folclore homossexual : Luiza Fel¬
puda. Couhed-a (o) peasouhucate. Mal» fui duif
vezes d lente do sen bordel masculino. Não cabe
aqui, aunt elogio fúnebre, fazer uma aaàhse da
prostituição, seja feminina ou maacullua: sem ser
necessária, da é inútil e neste momento bmta.
Cads um que faça o seu Julgamento.
Não me constrange, juro, dizer que usei as
trabalhos pruflmloaals da Lntza Felpuda. Um
bordd é am bordel e na função está dito tudo e
tudo justificado. Fui ao da Luiza à procura de
emoções diferentes (?) e oh tive -as, de um certo
modo, utilizando a Imaginação no sentido de es-
(ra vazar o lado promiscuo da minha Identidade
sexual; e não foi má a experiência, tanto que a
repeti uma segunda vez.
Quase trinta anos à serviço do público, fi¬
zeram famosa a “miisou” Fdpuda, por onde
passou também multa gente famosa. Dizem os
jornais gaúchos que o travesti Jodma, que fun¬
cionava como gerente, organizou para o delegado
de policia encarregado do assassinato, um carnet
de nomes: personalidades das artes, política,
sociedade, etc. Um listão! E este resultou tão
4Mp” que além de fázer inveja á agenda de en¬
dereços do G aspar otto, já existe um plano para
incluir essa Usta na próxima edição do “WhoY
*ho”. Um curioso detslhe é que apesar de ter
sdo ditada, no decorro’ desses anos, por tantas
pessoas Ilustres, Luiza Felpuda nunca resultou
vaidosa, soberba ou “snob” permanecendo sem¬
'Os assassinos nada iráo sofrer.
Vocês vão vct! Há pouco mais de um
mês, um medicozinho de boa família
matou o seu amante (dois anos de cama
e mesa), um belo jovem bailarino. Nada
sofreu. E nem vai sofrer. A coisa anda
nesse pé.
“Precisamos lutar até conseguirmos
mudar esta porcaria."
lota EUe”
Recife (08.05.80)
Músico atuando no Grande Hotel e no Mi¬
ramar, foi assassinado em Redfe, o pianista Evar
Lemoine Silva, o “Bamba”, com cerca de 40
anos. O crime aconteceu na manhã do dia 6 de
maio, terça-feira, em seu apartamento (1.324) do
Edifício Holliday, no elegante bairro da Boa
Viagem. Além de uma pancada forte na cabeça, o
corpo estava cravado de facas, garfos e chaves de
fenda, em verdadeira orgia de sadismo. O prin¬
cipal suspeito começou sendo João Batista da Sil¬
va Neto, filho de um policial, logo preso, seguido
de um desconhecido de lm80cm de altura, que
habitual mente usa roupa branca e uma touca
preta.
Segundo os vizinhos, “Bamba” e João seriam
caso há vários anos, embora não morassem jun¬
tos. Cerca de um mês antes, a vitima teria se
ligado com o segundo suspeito, estando disposto a
se liberar de Joio. Até agora, quando escrevemos,
o terceiro homem ainda nio foi preso nem sequer
identificado.
O assassinato foi descoberto de noite, quando
um dos diretores do Hotel Miramar encontrou o
corpo. A vizinhança afirma nada ter visto ou es¬
cutado de anormal, na hora presumível do crime,
apesar da porta ter ficado entreaberta o dia todo.
O criminoso, que usou luvas para matar,
roubou as jóias, os perfumes e todo o dinheiro do
“Bamba”. Novamente falam as vizinhas: Joio
nio tinha emprego fixo...
PRISÃO DE JO AO
O chefe da portaria do Holliday, Geraldo
Rosa e Silva, apontou João à policia, na noite do
crime, quando ele chegou para encontrar o
“Bamba”. Segundo Geraldo, o companheiro do
pianista esteve no apartamento na manhã do as¬
sassinato , mudou de roupa, tomou um carro e
sumiu.
Posteriormente, a polida deteve Fernando
Ferrdra dos Santos, para averiguações, mas
acabou libertando o homem, que dizia ter ido
cobrar, de "Bamba”, uma divida de duzentos
cruzeiros, pela venda de um quadro.
Sidnei Granja Pires, moradora do Holliday,
assegura que Joio é uma pessoa equilibrada,
habitual flreqüentador do apartamento, qoc nun¬
ca demonstrou ser má pessoa. Mas, acrescenta
que acredita que foi João quem esteve com o
pianista na manhã da morte, e que também cré
que o matador poderia ser de.
EXCELENTE PESSOA
Para Luls José, rnattre do grande Hotel,
4 "Bamba” era ama excelente pessoa. Nio porque
morreu, mas pelo que representava em vida.
Todos adorávamos de . Jaraais o esquecerei.
Segundo Vanildo PascoaJ , maltre do Mira¬
mar, o músico era ura exedénte profissional c
uma criatura humana maravilhosa. Só fazia
amizades, com o pessoal e os clientes. Estamos
todos desapontados.
Os proprietários do Miramar e do Grande
Hotel, confirmando tais versões, providenciaram
o funeral, que teve grande acompanhamento, ser¬
viço rdigioso e a presença de dois irmãos e alguns
sobrinhos dó morto.
Ele não tinha inimigos, escreveu, Alex, co¬
lunista sodal do “Jornal do Comércio”, de Re,
dfe.
SONO DA MORTE
A polida diz que “Bamba” foi abatido en¬
quanto dormia e que nâo deve nem ter se aper¬
cebido de nada. Maguérn tinha nadn contra de,
nio sd como ele foi assassinado desta maneira,
lamentam os porteiros Mendes e Edilson. Mas, se
“Bamba” tiver sido morto dormindo, como ex¬
plicar as manchas de sangue espalhadas pelo
apartamento?
Parece ser geral, no Edifído Holliday, a con¬
vicção de que João, que vida ás custas de “Bam¬
ba”, teria sido o criminoso, por ciúme do novo
namorado do músico.
Para Geraldo, o assassino deve ter sido um
desses desocupndos que vivem às custas de ho¬
mossexuais.
FAMlLl A REPRESSORA
íntimo de trés vizinhas (Maria Barbosa, Sid¬
nei Pires e Kátia de Lima), o “Bamba" sempre se
queixava de sua familia, que não lhe perdoava
sua assumida homossexualidade: Eles nio me
procuram para nada e isso me dói muito. Com
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«•
Eámw Umokme SOrm< o “Bmmhm"
excepção de wn sobrinho, o§ dcnils cio ligam
para mim , porqae sou assamidaamate lm.
“Bamba” tentava preencher o vazio deixado
por sua família Em seu apartamento, almoçava
diariamente com uma mulher, sua amiga, que
seria sua maior confidente e que muito ajudou no
desenvolvimento do inquérito policial .
Entretanto, tudo começou ficando mais d aro
(ou menos?), quando o amante de “Bamba”,
Jofto, denunciou o suspeito desaparecido, oomo
sendo o verdadeiro criminoso.
Resta esperar que, desta vez, o crime nio
fique impune, como geralmente acontece quando
a vitima é um homossexual.
NA HORA DA BRIGA
Aproveitando este assassinato, o jornal
“Diário de Pernambuco”, pela mio do senhor
Marcos Túlio, em sua ediçio de 12 de maio,
desencadeava uma virulenta campanha anti-
homossexual, uma proposta de caça àt bichas, tal
qual está já acontecendo em Porto Alegre.
Sob a manchete No homossexualismo a
paixão libera a vtoêéncia sádica, foram publicadas
mentiras e agressões como estas: O médico
psiquiatra Lidemberg Isac de Macedo diz:
'Inicialmente, o Ao existe o homossexual passivo
ou ativo. O que existe é uma unidade sexual dis¬
torcida, ou mesmo pode-te admitir o termo per¬
vertido, e como é lógico, se nio houvesse os dois
componentes, néo havia homossexualismo. Par¬
tindo dessa premissa de que ambos sAo porta¬
dores de distúrbios psíquicos, toda a teqüéncla de
açóes pertinentes á vida na sociedade obriga¬
toriamente sáo pervertidas. O homossexualismo é
realmente um crime sexual, parte de vigência
psíquica oriunda de distúrbios, estando dessa
maneira, propícios em casos de homlddlos
ocorrerem de maneira mais violenta e mesmo per¬
versa.
Isto é, para os senhores Túlio e doutor Lidem -
berg. somos seres distorcidos e pervertidos, por¬
tadores de distúrbios psíquicos, de vivência sodal
obrigatoriamente pervertida; somos, ainda,
criminosos sexuais e violentos. Genti ficamente
falsas, tais afirmações denotam uma desones¬
tidade e uma má fé que merecem um belo proces¬
so por calúnia e difamaçfio, a ser assumido pelos
homossexuais pernambucanos, ou outros, com
exigência de reparação de danos. Quem compra
essa briga?
QUEM ESTÁ LOUCO?
em sua paranóia antibichas. Um deles, o major
Manoel Pimenta (professor de Educação Física e
Relações Públicas da Policia Militar de Pernam¬
buco), não hesita em inventar coisas assim: Na
realidade, o homossexualismo é uma anomalia e
que resulta viverem essas pemoas na fronteira da
loucura. Dal a razão dos crimes dessa natureza
terem praticados com tamanha brutalidade.
Quando ocorre o homicídio, o Indivíduo exte¬
rioriza todos os seus recalques e frustrações com
que rinha convivendo e, naquele momento,
levado por uma verdadeira crise de loucura,
retorna á época do homem da caverna e, impul¬
sionado por uma totalidade de sentimentos bes¬
tiais, pratica uma série de brutalidades.
Quanto a nós, no Lampião, fazemos questão
de denunciar todo este maquiavélico plano re¬
pressivo, arquitetado por certos médicos, certos
advogados e certos policiais. Esperamos poder
continuar contando com a preciosa ajuda dos
leitores que nos enviam material informativo,
como o que possibilitou as matérias desta seção.
Sabemos nos defender. Combateremos quem
quer nos esmagar e calar. Sabemos que ser ho¬
mossexual não é ser doente, nem anormal, nem
criminoso, nem violento, nem pre vertido, nem
aleijão. Somos homossexuais e nos orgulhamos
disso. (JoioCnmslio I
O médico
e o bailarino:
mistério?
Na adição de 26 de UMdo (a.97f) da rrvfrta
Tato a A Fotos / Gente”, a upéritr Iracema
Rodrigues escrevia: No Recife, há algum tempo
que os homossexuais estão sendo vitimas de uma
bruxa, no mínimo, preconceituosa. Há menos de
dois meses, o bailarino Tõni Vieira foi assassi¬
nado por seu ex -amante, o médico Qôvis Mar¬
ques Filho. Entretanto, apesar de se saber o nome
do assassino, as investigações continuam paradas
e nada de concreto foi descoberto.
certeza absoluta, de ser Oóvts o criminoso;
porém, nosso Mor Jata Ele (ver curta nesta
seção) faz a mesma afirmação. Dal dedsudmm
que, em Recife, essa opinião está generalizada. Ê
predao apontar o intiibo, sem dúvidas. Julgar
e, te for o caso, punir. Ninguém pode matar em
vão.
A propósito, recordemos o acontecimento.
VARIAS HIPÓTESES
Dia 9 de março, domingo, no número 352 da
Rua Améia. Edtftcio Sta. Margarida, Aflitos,
Recife, morreu o bailarino Antonlo Carlos Qiuha
Vidra, o Tony. Saiu ferido o médico obstetra
CJóvto Marques FBho, em cujo apartamento
ocorreu u tragédia. O morto estava com duas
balas no peito e uma na cabeça; o ferido estava
também boleado.
Ao detetive kmé Edson Borbota, da DH,
colocava-te três hipóteses principais: tentativa de
homicídio, seguida de sukUlo; homicídio, se¬
guido de tentativa ou simulação de suicídio; ten¬
tativa de bomlctdlo contra Góris, seguida de
suicídio, de Tony, com uma ação homicida suces¬
siva c concorrente de terceiros .
O mais importante, hoje, e o mais grave, é que
ninguém está preso, como suspeito. E, é desse
Impasse que precisamos sair. Ou será que alguém
consegue se suicidar com três tiros?...
EA MATEMÁTICA?
Para Irene Barbosa da Silva, empregada do
médico, oAcialmente a única testemunha, Tool
tentara abater Qóvb e depois se suicidou, dis¬
parando dois tiros de enda vez. Ora, foi encon¬
trado um revólver Rossl, calibre 31, modelo para
cinco projéteis; a arma disparara quatro balas e
mantinha uma na câmara: de onde vdo o outro
tiro?
No Hospital Geral de Urgências, para onde
fora levado no dia do crime, por seu pai, Qóris
entrou em pânico na quarta-feira, dia 12 dizendo
que tinham sido feitos dois telefonemas anóni¬
mos, ameaçando sequestrar e linchar o médico.
Logo foi destacado um policial, para garantir a
sua segurança.
DEPOIMENTOS
Tony, que dirigia uma Academia de Dança,
tinha um filho de cinco anos, Ricardo, frtre mm
amigas mais intimas, estava a estudante Maria
Gorete Alves de Souza, de 19 anos, sus aluna;
durante janeiro, ela se hospedou na casa do casal
homossexual, e declara: Brigavam muito, Tony
tinha ciúme, sempre se insultavam e batiam,
quando Oôvis chegava tarde. Tony me pediu,
uma vez, que se acontecesse “alguma besteira”,
tomasse conta das suas coisas e cuidasse do
Ricardo.
E prossegue: quando cheguei no apartamen¬
to, depois do crime, estavam lá pessoas que não
conheço, e Irene e Agostinho. Estava tudo fora
dos lugares e o telefone no chão. Havia sangue na
sala, na cozinha e no quarto.
Logo foi desfeita a versão que dava como
motivadora do crime a difícil situação financeira
do bailarino; além de ter comprado um apar-
No dia 13 de setembro do ano passado, a
residência de Aírton Burity no Parque Fluminen¬
se, Campos Eliseos, muni dpi o de Nova Iguaçu, fiai
invadida por oito homens armados que diziam ‘-se
da polida. Depois de ameaçar a família, saquear
e destruir tudo, levaram o filho do proprietário
José Carlos, ao qual fuzilaram.
Em 13 de outubro, em Vila Paulina, Belfòrt
Roxo, município de Nova Iguaçu, um grupo de
oito homens fez as mesmas atrocidades na casa de
Marli fereira Soares, assassinando o irmão desta,
Paulo Pereira Soares Filho. Dias depois, um tal
de Car linhos Capeta, amigo de Paulo e namorado
de Marli, foi morto em circunstâncias semelhan¬
tes.
No dia 26 de fevereiro deste ano, oito soldados
da PM invadiram a casa de Latira Maria de Souza
em Rosa dos Ventos, Morro Agudo, Nova Iguaçu
e sequestraram o filho desta, José de Souza, e
Adilson da Silva, amigo deste. Ambos estão até o
momento dados como desaparecidos.
Todos esses crimes foram atribuídos ao fic¬
tício Mão Branca. Todos possuem características
comuns: o número de invasores, o saque e de¬
predação da residência das vitimas, e o fuzila¬
mento destas. Todos igualraentc tenderiam a ser
arquivados como “autoria desconhecida”, não
fosse Marli Pereira Soares, a irmã da segunda
vitima. Sua coragem e personalidade estão sendo
decisivas para o desmascaramento de mais uma
policia mineira, um esquadrão da morte.
Durante meses ela tentou identificar na
Poliria Militar os assassinos do irmão. O 20?
Batalhão tudo fez para desencorajá-la. Finalmen-
te, há um mês e pouco atrás, a juiza Ana Maria
Faber Barbalat determinou que a tropa fosse for¬
mada para ser vista por Marli. Ela reconheceu
então, o cabo Adalvo Oescéncio (cumprindo
pena na cozinha do batalhão por ter assassinado
um operário a socos e pontapés) e o soldado Jorge
Alves dos Santos.
Foi a gota d’água. Policiais civis e militares
começaram abertamente a tumultuar o caso. O
delegado Amin Chaim, encarregado do inquérito,
acusou o diretor da Policia Metropolitana, Heral-
do Gomes, de tentar influir no curso do processo.
Foi imediatamente substituído. O comércio da
cidade fechou as portas em solidariedade a ele,
mas nada adiantou.
No dia 08 de maio, um violento tiroteio até
agora mal esclarecido entre policiais civis e
militares e até membros das Forças Armadas
marcou o último dia de Chaim no cargo. No dia
seguinte, empossado o delegado Milton da Costa,
a 34? Delegaria foi literalmente invadida pelo
capitão AJípio Bastos da PM. Com a omissão do
novo delegado e a cumplicidade do promotor da
4? Vara de Nova Iguaçu (José Pires Rodrigues),
Marli, sem a presença d i seu advogado, foi então,
coagida a reconhecer quatro acusados confessos e
o caso foi dado por encerrado. Os assassinos
seriam apenas quatro e não oito. Há entre eles
apenas um PM (Jairo dos Santos Filho). Os outros
são guardas de segurança ou coisa parecida:
Moisés Luiz da Silva, João Batista Gomes e João
Gomes Amorim. Todos acusaram Marli de pros¬
tituta, seu irmão de assaltante e o delegado
Chaim de corrupto. Até uma falsa testemunha foi
apresentada pelo capitão.
Desta vez o escândalo foi tão grande que
outros setores acabaram mobilizando-se a favor
de Marli. Na imprensa, foi dada grande cober¬
tura de reportagem e o assumo chegou até a
editoriais no Globo, JB, Folha de SP e Veja. O
Centro da Mulher Brasileira, entidade feminista,
decidiu ajudà-la. E a Ordem dos Advogados do
Brasil -seção Rio', requereu ao procurador geral da
república a designação de um promotor especial
lamento recentemente, Tony tinha um bom saldo
bancário, como se comprovou pelo levantamento
policial.
UM DESAFIO
Até agora, nada ou quase nada, de novo, foi
apurado pela policia. Tado parece ter sido es¬
quecido ao segredo das ‘boas famílias pernam¬
bucanas”, como aquela a qae pertence o doutor
aóvis. E Tony? Quem luta por sua memória?
Qae esperam as bichas e os sapatões pernam¬
bucanos, frangos e pitombas, para se organizar e
lutar? (João Carneiro);
para companhar o caso, colocando em suspeita o
de Nova Iguaçu .
Apesar do Cápitão Aiipio Bastos, * o caso
Marli nio terminou ai. Dia 12, familiares do PM
Jairo tomaram a delegacia. Vinham num ônibus
cedido pela Viação Vera Guz (a qual Jhiro vendia
proteção) e decididos a provar que o irmão de
Marli era mesmo assaltante. As testemunhas
apresentam tantas contradições que nada ficou
provado.
Dia 13 de maio, os parentes de José Carlos
Burity e Edson Moita reconheceram pda TV João
Batista Gomes e João Gomes Amorim, assassinos
confessos do irmão de Marli, como dois das seus
sequestradores. Na própria delegaria apontaram
o detetive Benedito Abel e denunciaram um tal de
Leléu. Por outro lado, dona Laura de Souza e
dona Dei se Rodrigues, mães dos desaparecidos
José e Adilson, começam a tentar repetir a via
cniris de Marli em reconhecer os soldados assas¬
sinos (um teria o sobrenome Teixeira). E como se
não bastasse, a mãe de José Carlos Adel, dona
Elionette, denunciou os acusados de caso Marli
como invasores da sua casa, ao lado de outro PM
(Renato Maia) e dois alcagUetes. A Polida Gvil
tem dificultado o andamento desses novos proces¬
sos, segundo denunciaram os advogados.
Nesta confusão, estão acusadas nada menos
de 13 pessoas, das quais seis pertencem ao 20?
Batalhão da PM, três são da Policia Gvil e quatro
paisanos. Do fato, podemos (e devemos) tirar al¬
gumas conclusões políticas.
I — Antes de mais nada, a comunidade deve
sentir-se grata á Marli Teixeira Soares, sem cuja
coragem nada poderia ter acontecido. Ela prova
como uma pessoa triplamente discriminada
(como mulher, como negra e como pobre) pode
forçar uma tomada de posição apenas com sua
persistência.
II — A entrada em cena da OAB e do Centro
da Mulher Brasileira é importante porque pode
marcar o inicio de uma campanha pelo sanea¬
mento da justiça e pelo preso comum. Não pode,
pçrtanto restringir -se apenas á Marli. Tem de ser
estendida as outras mulheres do caso — e a
outras regiões do pais. Estranho aqui entretanto a
omissão da diocese de Nova Iguaçu, cujo bispo
dom Adriano Hipòlito já sofreu mais de um aten¬
tado direitista e cujos inquéritos não deram em
nada. E também das entidades negras, mais
ocupadas talvez na semana da Abolição com
showzinhos e conferências.
III — A imprensa foi importantíssima, apesar
das declarações do comandante da PM, coronel
Aníbal Mello. Foi através de focos e TV que as
outras mulheres reconheceram os acusados. Mas
os jornalistas não devem esquecer que uma das
principais causas da corrupção nos meios poli¬
ciais são os baixos salários. Recentemente, os
movimentos reivindicatórios da classe (tanto civil
quanto iqilitar) foram reprimidos energicamente
pelo governo c nio encontraram uma linha sequer
de simpatia na imprensa. Antes pelo contrário.
IV — A Policia Militar deve compreender que
formar o batalhão para que possíveis soldados
criminosos sejam reconhecidos, não denigre de
forma alguma a corporação. O que pode denegri-
la, isto sim, é a existência de criminosos ocultos
nas suas fileiras (veja-se as cifras de expulsão
anuais), a obstrução da justiça e atitudes como as
do capitão Aiipio. O mesmo se aplica, na Policia
Gvil, aos que tentam dificultar o andamento dos
processos. Sâo funcionários públicos, pagos com
o dinheiro dos contribuintes para cumpir a lei, e
nâo pra violá-la ou emperrá-la.
V — A opinião pública deve vigiar o decorrer
do processo. O caso Marli nâo acabou. Agora é
que está começando. (Joio Carlos Rodrigues)
E o senhor Túlio e seus amigos prosseguem
Página 6 LAMPIÃO da Esquina
Lições Políticas
do Caso Marli
APPAD
associação paranaense
da parada da diversidade
★
★
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
|bof arada)-
: C®*
> >v -
•
Página 7
LAMPIÃO da Esquina
Fotos: Dimitri Ribeiro
a Pura
APPAD *
a s s o c i a ç a o paranaense
da parada da diversidade
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
IATIVISM01
O racha no SOMOS/SP
No dia 17 de maio ocorreu o que já sc operava
há alKum tempo: o eslilhuçamento do grupo
SOMOS, de São Paulo. A situação dentro do
grupo vinha »e deteriorando desde o «irgimenln en¬
tre seus participantes de antagonismo* aparen¬
temente irreconciliáveis durante o* debátes do I
Encontro Brasileiro de Homossexuais. “Lam¬
pião" passa aos seus leitores os documentos en¬
viados pelas f ac c<>es em conflito, ao mesmo tempo
que publica um esclarecedor depoimento sobre o
assunto de Eduardo Guimarães, do grupo SO¬
MOS carioca.
DOCUMENTO I
Sàu Paulo, 19 de maio de 1980.
*‘Ao Movimento Horno sexual: Em reunião
geral no Mistura Fina, dia 17 de maio, o grupo
Lésbico-Feminista separou-se do grupo SOMOS.
Assumimos esta posição com base em experiên¬
cias concretas de um ano de trabalho e através
das quais acreditamos hoje, poder afirmar que:
1) a participação de lésbicas em grupos mis¬
tas tem impedido o desenvolvimento de uma cons-
sicéncia leminista, essencial, a nosso ver, para o
próprio M.H Dada a especificidade da discri¬
minação que sofremos, enquanto mulheres e
homossexuais, consideramos o processo de afir¬
mação somente possivcl em reuniões separadas
das dos homens. As mulheres nâo podem des¬
cobrir o que têm em comum a nâo ser cm grupos
só de mulheres;
2) ê falsa a idéia dc que um grupo homos¬
sexual precise de lésbicas para levar a questão
feminista. Sempre nos colocaram a necessidade
dc existirem mulheres no grupo para ensinar
feminismo c apontar atitudes machistas.
Achamos que a conscientização, embora cm
níveis diferentes para homens c mulheres, se dá
da mesma forma, isto é, por meio dc leituras,
pesquisas c da reflexão «onúnua sobre j re
produção d dé *pajV isTi ef êr õkiti (jai s de masculi¬
nidade c feminilidade. Acreditamos ainda que
qualquer grupo realmentc interessado em fe¬
minismo pode iniciar uma discussão sobre o
tema, independente da participação das mu
lheres. Inclusive, a presença de lésbicas nào só
nâo implica numa postura feminista, como tam¬
pouco serve como uma estratégia dc combate ao
machismo que todos reprrxluzimos;
3) í* grupos lormados exclusivamenic por
lésbicas ou bichas nâo dividem o M.H., pelocon
trário, podem enriquecé-lo, apontando novas
propostas na direção de um verdadeiro cresci¬
mento da consciência homossexual. A nossa
atuação externa, participações em congressos e
manifestações, vem desmonstrar nào haver qual¬
quer empecilho no sentido de uma açâo conjunta,
desde que sejam preservados nossos objetivos e
autonomia.
'Tema a oferecer, para troca de informa¬
ções. uma prática de atividades, efetuadas desde
maio de 79, que inclui contatos com outros
grupos discriminados (grupo feminista) e um
processo efetivo dc aglutinação dc mulheres
homossexuais . " Grupo Lésbico- Feminist a .
DOCUMENTO 2
“CONSIDERANDO que a imagem externa
do Grupo Somos está irreversivelmente associada
ao grupo C onvergência Socialista;
“CONSIDERANDO que a autonomia do
Grupo Somos está comprometida pelo caráter da
atuação de elementos filiados a organizações
político partidárias;
‘CONSIDERANDO que o Grupo Somos foi
desviado de sua definição como grupo de homos¬
sexuais interessados basicamente em discutir nos¬
sa sexualidade e lutar contra a discriminação
sexual
“NÓS, abaixo nomeados, nos declaramos
DKMJGADOS do Grupo Somos a partir desta
data, c passamos a construir um novo grupo que
sc propõe a afirmar a definição de grupo homos¬
sexual autônomo e interessado prioritariamente
na questão homossexual. Sâo Paulo, 17 de maio
dc 1980.“ Assinado: Cacâ, Celso I, Emanoel,
Lv«*n*to, Glauco, RcynaJdo I, Ricardo III, Tosta,
/cze .
DOCUMENTO 3
Página 8
<? «A'(yi*t
“Desde a realização do l.° EGHO, evidenciou-
se uma divergência dentro do Somos-SP: que se
discutia política, manobras partidárias, tudo em
detrimento das questões específicas homosse¬
xuais. Essa divergência foi radicalmente demons¬
trada na 6? Reunião Geral deste ano, ocorrida em
1 7 de maio, quando nove elementos apresentaram
uma denúncia e a sua renúncia em continuar no
Somos-SP.
“A radical idade a que nos referimos é porque
essas pg^soüs nfp discutiram a denúncia e ner
*sua lenunciaTtlftd^^ioSfmitTva a nelirafla
grupo. Tal denúncia, entretanto, nâo foi con¬
siderada pelo grupo, tendo a reunião prosseguido
e chegado ao consenso que a continuidade da es¬
trutura do Somos-SP nâo sofreria, de imediato,
qualquer modificação. O objetivo desta carta é
aclarar os motivos que determinaram essa renún¬
cia.
“O grupo Somos-SP, que mantém a definição
que a homossexualidade nào sofre restrições pelas
diferentes formas de participação dos seus ele¬
mentos e que esta participação pode até mesmo
ser em partidos políticos, a nível individual, con¬
cluiu que as acusações sobre a filiação partidária
de algumas pessoas nâo interfiriria em seu desen¬
volvimento. Ao contrário, considerou que a
homossexualidade deveria estar refletida também
nas demais relações sociais como trabalho, re¬
ligião e educação. Concluiu-se que a disposição
de discutir programas partidários deveria ser
iniciativa individual e em local distanciado das
Reuniões Gerais.
“O grupo Somos-SP nâo abdicou em nenhum
momento da discussão da questão homossexual.
A não ser que se considere desvio a discussão
fomentada pelos rcnunciantes quanto á possível
influência externa. Ou sobre o trabalhador
homossexual do ABC. Ou sobre o negro homos¬
sexual.
“lamentamos esta denúncia grupai porque a
argumentação foi, no mínimo, irreal. Acredi¬
tamos porém, na sinceridade dos elementos que
se retiraram; eles realmente acreditam no que
dizem.
“O que demonstra basicamente essa decisão
que marcou a retirada dos nove elementos foi a
realização do !.° EGHO. No encontro, a cons¬
tatação de que alguns elementos sc colocavam
como apoliticos e exigiam do grupo essa defi¬
nição, teve como contrapartida a opção da
maioria pela qualidade política do grupo. Após o
encontro, a entrada de novos elementos trouxe
novamente a discussão política para o interior do
Somos-SP. Isso porque, em relação com a nossa
realidade sócio-econômica, os integrantes do
grupo passam necessariamente por todas as
outras manifestações sociais. Impossível, portan¬
to, estabelecer, na realidade brasileira, hoje, um
grupo discriminado por todas as políticas e que se
defina como apolitico. Por isso a reiterada afir¬
mação de que o grupo Somos-SP nâo é um grupo
de filiação partidária, mas é um grupo político.
“Admitimos a possibilidade de que os ele¬
mentos que se afastaram se constituam num
grupo que atenda às suas necessidades parti¬
culares. Entretanto, refletimos que a crítica do
processo do grupo Somos-SP por estes mesmos
elementos, seria dc inestimável valia, tanto para
nós, como a finalidade de não repetirmos as mes¬
mas condições, como para o novo grupo, a fim de
&ue estabeleça claramente sua posição em relação
£ política homossexual frente à realidade social,
irisando não sofrer mais as contradições no seu
objetivo. " Grupos Somos de Afirmação Homos¬
sexual.
UM DEPOIMENTO
mairtL^auatrjh da tarde,
rde umarfate sobre homos¬
sexualismo na PUC, o telefone toca. Eva, uma
repórter de Veja, me pede declarações sobre as
relações do Somos-RJ com os partidos políticos.
Mão preciso dizer que tive enorme curiosidade em
saber porque ela queria saber justamente aquilo.
Invertendo as posições, passei a entrevistá-la, e já
agora queria também saber como ela tinha con¬
seguido meu telefone, porque nâo sou o porta-voz
do grupo Somos-RJ.
“Se sua primeira resposta — dizendo que o
contato tinha sido feito através de amigas do
Coletivo de Mulheres — foi tranquilizante, a
segunda me jogou sentado numa cadeira e me
devolveu à posição definitiva de entrevistado. Ela
sabia que algo se passava com o Somos-SP e
declarou ter conhecimento que partidos políticos
haviam demonstrado interesse pelo Somos (c que
eventual mente teriam até mesmo tomado a li¬
derança do grupo). Eu ficara sabendo no sábado
da saida de 14 rapazes do Somos-SP e da sepa¬
ração definitiva da facção Lésbico-Feminista do
mesmo grupo. As razões alegadas: a atuação de
elementos filiados a organizações politico-
partidárias havia distanciado o grupo da discus¬
são primordial — a da sexualidade — e associara
a imagem (do grupo) à da Convergência Socialis¬
ta, especificamente.
“Embora surpreso com a rapidez com que a
noticia chegara à redação de Veja, assim como
com o súbito interesse da revista por um tema tão
debatido durante o Encontro de São Paulo, resol¬
vi simplesmente acreditar que bichas e lésbicas
haviam finalmente conquistado um espaço físico
e político neste pais. Assim, falei pra ela sobre o
nosso tema AUTONOMIA — tão discutido em
abril. Se a lição entre os movimentos e a política
partidária era novidade para repórter, pra nós
nâo é. O grupo Somos-SP está marcado pela luta
politico-partidária. A presença da Convergência
dentro do Somos ficou efetivamente marcada no
Encontro. O fato assume importância ainda
maior com a saida dos 14 rapazes, que nâo são
absolutamente o que se poderia chamar de bucha
de canhão. Aliás, se algum nome tivesse dc ser
dado à maioria deles, acredito que ornais próprio
seria o de bichas históricas — nâo enquanto
registro morto, mas como memória viva, atuante
e determinante na cena dos movimentos brasi¬
leiros.
‘Mão preicndo ser imparcial em minhas aona-
deraçòes, nem me distanciar das pessoas que nos
trazem tais fatos á baila, dai a pouca precisão
desta análise. Munido de toda a simpatia pessoal
e teórica, me proponho a comentar a última en¬
trevista dada pelo Somos-SP ao jornal Em Tem¬
po, antes da crise atual. Em primeiro lugar, fica
claro que tanto o grupo de São Paulo como o do
Rio — independentes um do outro — têm um
longo caminho a percorrer antes de ter um dis¬
curso próprio, em contraposição a um discurso
pessoal de seus membros. (Impossível saber se al¬
gum dia teremos tal discurso).
“As alianças que virão fortalecer nosso
movimento — proclamadas na citada entrevista
por um dos rapazes que não saiu do Somos e que
durante o Encontro sc identificou como membro
da Convergência — serão obviamente consequên¬
cia das características próprias do movimento. ‘
Ora, se tais alianças nâo só dificultam como im¬
pedem o pleno andamento do Somos-SP, ou de
outro grupo qualquer, me parece que tais alian¬
ças são indesejáveis.
“Finalmente, me pergunto como ficam os
demais grupos diante de tais acontecimentos?
Evidentemente temos aqui material para longo
debate. Mas. imediatamente, como ficam as
relações dos demais grupos com o Somos-SP?
Pretensão minha ter resposta para esta pergunta.
Como membro do Somos-RJ acho recomendável
uma atitude prudente, de escuta, em relação a es¬
te Somos Convergente. As idéias dentro de qual¬
quer movimento tomam corpo, tornam-se ação.
Eu me vejo aliado a este novo Somos enquanto
seus atos forem marcados pelo timbre da luta
homossexual. Fica aqui meu voto para que o
Somos-SP não reedite entre nós o papel de depar¬
tamentos femininos dos diversos partidos e sin¬
dicatos dentro docenário feminista." Eduardo
Guimarães.
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APPAD*
a s s o c i a ç a o paranaense
da parada da diversidade
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
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LAMPIÃO da Esquina
Por uma política menor: bichas
e lésbicas inauguram a utopia
aos seres que ousam, ousaram e ousarão
(com Copyright para Ângela Ro-Ro)
Se cu for pensar em termos do possível, nós
dos chamados movimentos minoritários temos
nâo apenas condições de transformar a sociedade
como podemos realizar essa transformação
através de formas políticas alternativas e trans¬
gressoras, por nós inauguradas. Acredito que isso
só será possivel mediante uma profunda crítica
aos partidos políticos tais como existem em nossas
democracias burguesas e cujos modelos são
basicamente copiados pelos grupos socialistas que
disputam o poder.
Existem diferenças básicas entre nós e os par¬
tidos políticos. Estes se organizam para conquis¬
tar o poder, falando, inclusive em nome de outras
classes, como ventríloquos. Em contrapartida,
numa práxis política homossexual (parte de uma
política de grupos discriminados) falaremos em
nome de nós mesmos do nosso quotidiano, oom
um posicionamento contra o poder. Para isso nâo
existem receitas, mas apenas sugestões, já que as
novas formas estão apenas sendo inauguradas.
Ora, só é possivel iniciar o novo se o aceitarmos
como possivel. Desse nada é que nascerá nossa
política original: da crítica permanente ao poder e
também aos críticos institucionalizados do poder .
Para mim, política alternativa é forma de
práxis fora dos quadros partidários e para além
do mero jogo de disputa de poder. Em outras
palavras, um movimento homossexual realmente
autônomo estaria buscando contrapor -se ao an¬
tiquado estilo de agremiação partidária que nos é
apresentado como única alternativa de partici¬
pação política de esquerda. Seguindo por aí,
acabaremos por rediscutir, inclusive, o conceito
oomonte de democracia, criticando esses mecanis¬
mos de persuasão que levam uma determinada
atitude a se tornar padrão da maioria. Ou seja,
iremos descobrir que . por detrás do "aparato
democrático" existe a manipulação nada de¬
mocrática, na medida que os donos do poder sflo
também donos do aparato. Além disso, parece-
me cada vez mais inaceitável uma forma de con¬
senso em torno d« um porgrama partidário que,
por ser universal e definitivo, passa a se rotular de
“democrático". Seria preferível optar por pe¬
quenos consensos em torno de programas de
grupos específicos, onde a rede política se teceria
num amplo quadro social de solidariedade entre
os diversos discriminados — resguardadas todas
as diferenças fundamentais que um programa
universal tende a nivelar. Assim se evitaria um
consenso que na realidade acaba sendo uma
ditadura da suposta maioria.
CONTRA O PODER, CONTRA A NORMA¬
LIDADE
O que seria estar contra o poder? Acho que é
estar mais preocupado com a forma de fazer
política do que propriamente còm rígidos ob¬
jetivos estabelecidos a partir de manuais revo¬
lucionários. Ou seja: as novas formas de práxis e
questionamento começarão pela discussão das
velhas formas políticas presentes dentro de nossas
cabeças, tâo velhas quanto as de nossos pais, an¬
cestrais. Elas sâo formadas dentro dos mesmos
padrões de competição, normalidade e conquista,
típicos de uma civilização assentada sobre o falo,
o Patriarca. Nossa politica é patriarcal, vale
dizer, estruturada sobre o culto ao Herói, ao
Líder, ao Santo, à Normalidade — contrapondo-
se ao que seria então a Mentira, o Demônio, o
Bandido, o Dissidente. Em nossa práxis, o pa-
triarcado precisa ser mais frequentemente apon¬
tado como componente básico tanto de nossas
culturas quanto de nosso ‘Tnilitantismo socialis¬
ta." É isso ai: vivemos afogados na militância,
que implica num fazer militarizado, através do
qual procuramos vender nosso peixe, impor nos¬
sas idéias “novas" e com isso chegar aos centros
decisórios do poder. Pois é: vivemos como sol¬
dados que lutam em favor de Causas Santas, de
Verdades.
Ora, se consideramos que somos os herejes da
ordem consagrada, conclui-se que dessa maneira
estamos apenas transformando nossas heresias
em novos dogmas, em nova ortodoxia, e utilizan¬
do os modelos de opressão sofrida por nós, para
continuar oprimindo. Lembro o exemplo ame¬
ricano: as bichas de San Francisco expulsaram os
negros e chicanos dos seus bairros que se tor¬
naram chiques, com aluguéis proibitivos. Só
evitaremos reproduzir o gesto do opressor se nos¬
sa práxis deixar de lado um ativismo que, por ser
mecânico e compulsivo, acaba sendo conformista.
Quer dizer : se nossa práxis deixar de ser uma for¬
ma de sublimar nossos desejos. E se deixar o
desejo Homossexual aflorar com seu potencial
subversor.
Para questionar o militantismo sizudo, temos
nas mãos, ao menos potencialmente, fatores
inegáveis como a cama e suas variantes, esse es¬
paço para o nosso desejo. E entenda-se por cama
tudo o que esteja relacionado com prazer, corpo,
sexualidade, quotidiano, nível pessoal, etc. Por
ser lúdica, gratuita, irresponsável e farta em in¬
venções, a cama pode relativizar o poder. É ver¬
dade que frequentemente o poder relativiza a
cama, sempre que esquecemos nossa sexualidade
em favor da militância sobre sexualidade. E no
entanto, a melhor maneira de afirmar nosso
direito ao prazer é fazendo boa cama, contra a
chatice de nossos discursos militantes. Não
poderia ser essa uma das nossas contribuições,
em termos de práxis politica? Uma forma subver-
sora e herética, na medida que estaremos mis¬
turando elementos desconcertantes e criando
misturas novas? Subverter: colocar no lugar
“errado" as coisas certas, evitando a recuperação
ideológica da cama. Pois a cama tem um mistério
que é exatamente aquela característica das lin¬
guagens nào-discursivas; por ser imprevisível, ela
O LAMPIÃO não estft ligado a
nenhum grupo homossexual es¬
pecialmente. O LAMPIÃO não tem
qualquer ligação com nenhum grupo
político. O LAMPIÃO està vital-
mente interessado no surgimento de
grupos homossexuais e, como tal,
disposto a abrir espaço, em suas
páginas, para todos eles. Nestes
casos, no entanto, mais que o ativis¬
mo, o jornal se preocupa com o in¬
teresse jornalístico do material en¬
viado por estes grupos. O LAMPIÃO
fe, acima de tudo, um jornal de
minorias e não um boletim do ativis¬
mo homossexual.
Página 9
%
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associação paranaense
da parada da diversidade ^
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
lATIVISMO 1
fantasias engolidas, Estamos misturando in¬
gredientes pouco usuais. Nossos.
O PARAÍSO ACABOU. VIVA A UTOPIA
Direitas e esquerdas do sistema estão queren¬
do tornar-nos consumidores de homossexualismo,
e com isso recuperar-nos. Trata-se de uma forma
de nos iludir com o poder e neutralizar o potencial
subversor. A única maneira de garantir nossa
subversão e impossibilitar essa recuperação é ser
cada vez mais viado c sapatona, portanto mais
malditos e menos cobiçáveis por todas as formas
de poder (ordem), do tipo partidos, publicidade,
familia, midia. Quanto mais aprofundarmos nos¬
sas diferenças com a normalidade instituída (a
sociedade heterossexual compulsória), tanto mais
difícil será nos digerir. E tanto maior será nossa
capacidade de virar a mesa.
“A luta contra o poder é a luta da memória
contra o esquecimento”. Se é que nestes anos 80
aprendemos a ter memória, que se mantenha vivo
nosso desencanto com os Ídolos. Tentemos nâo
recriar heróis, nâo copiar modelos ou inaugurar
outros santes, quer sejam o Travesti Mártir, o
Viado Padrão ou a Grande Sacerdotisa Lésbica.
Evitar o equivoco das novas promessas em cima
de objetivos antigos; desaprender os manuais que
dividem o mundo em bandidos(as) e mocinho-
s(as). Se a sociedade de classes nos enche de con¬
tradições, nâo é em nome dela que manteremos
promessas de paraíso. O paraíso nâo existe por¬
que nele tudo está resolvido. E o mundo real é
delicioso exatamente por ser inesgotável em
desafiot^-wípífa sempre as teorias e exige que
nossas cabeças inventem. PARAÍSO x UTO¬
PIA. Botar a cabeça em altissima velocidade,
para inventar ao máximo o possível, a utopia.
Se for preciso terminar, introduzo o desejo
contundente: Senhores Juizes, vossa mediocri¬
dade amaldiçoou as diferenças e arquitetou a
loucura. Meu delírio é que sou apenas o universo
do meu eu, minha única legítima propriedade. E
vossa condenação não chega até lá, graças às
deusas. (JoáoSilvério Trtvisan)
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f
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Página 10 ’• • ... LAMPIÃO da Esquina
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de luxo, de apenas 200 exemplares. Estamos
vendendo os últimos exemplares.
INTERNATO
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72 páginas. OS 200,00
A história de um grande amor homos¬
sexual adolescente. A novela, publicada em
1951, é pioneira no tema, na Brasil, Paulo
Hecker Filho, escritor gaúcho, estreou na
literatura aos 22 anos. “Internato" é a terceira
obra do autor, que escandalizou a pacata in-
telligentsia nacional da época.
TEOREMAMBO
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Um Papai Nocl muito louco, uma bi¬
chinha sorveteira, uma fada madrinha des¬
ligada. a história do bofe a prazo fixa muito
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Meta e Oescilda e Espartanos.
A META
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99 páginas, QJ 120,00
"Darcy Penteado ilumina detalhes do
gueto que a maioria gostaria que o homos¬
sexual fosse circunscrito" (Léo Gi son Ri¬
beiro). O livro de estréia de um escritor que é
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CRESCILDA E ESPARTANOS
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"Como este, que fafa tudo aberta e de¬
safiantemente, possui a dignidade bem mais
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baros preconceitos” (Paulo Hecker Filho) —
Duas novelas e cinco contos, do total non i«-
se ao realismo poético.
MULHERES DA VIDA
Vários autores
77 páginas, CrS 100,00
Norma BengelI, Leila Míccolis, Isabel
Câmara. Socorro Trindad e outras mulheres
quentíssimas mostram neste livro a nova
poesia das mulheres que nào se conformam
com a pressão machista e tenta inventar sua
própria linguagem. A poesia feita nos bares,
calçadas, ônibus, boates, prisões, manicômios
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O CRIME ANTES DA FESTA
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136 páginas, CrS 100,00
Através da história de Ângela Diniz e seus
amigos, que ele trata como se fosse ficção, o
autor interpreta e esclarece todas as cono¬
tações de um instante dramático de nossa alta
sociedade. Um libelo contra o machismo e a
opressão.
PRIMEIRA CARTA AOS ANDRÓ¬
GINOS
Aguinaldo Silva
134páginas, QJ 120,00
“A única maneira de obter a igualdade e o
progresso nos relacionamentos humanos e
amorosos consiste na expressão franca da
batureza bissexual de todo homem e mulher."
NO PAlS DAS SOMBRAS
Aguinaldo Silva
97 páginas, QS 120,00
Dois soldados portugueses vivem um gran -
de amor em pleno Brasil colonial, envolvidos
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A história recontada a partir de 19684 faz um
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quadrão da Morte (e vencem!). A incrível his¬
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os autores que os editores tém medo de pu¬
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Monteiro Martins, Nilton Maciel, Luiz Fernan-I
do Emediato, Paulo Augustoe Reinoldo Atem,|
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Preferimos o menor,
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o infinitamente
enpecifico: só atingiremos
o todo se
partirmos da
partícula menor
tem uma linguagem nâo-codificável, a ser
abraçada mais do que decifrada. De tal modo que
os manuais de política dificilmente conseguirão
penetrar esse recanto onde as individualidades se
cruzam melhor, sem justificativas nem receitas.
O MAIS ABRANGENTE SERÁ
O MAIS ESPECÍFICO
At) rclativizar dessa maneira o poder, esta¬
remos contribuindo para destruir esquemas
patriarcais substanciados na busca compulsiva da
disciplina, da normalidade, do científico. E como
relativizar o poder? Com a afirmação de nossa
"anormalidade", ambigüidade, creatividade.
Com nosso rechaço aos CENTROS decisórios on¬
de se concentra o poder. É que nossa significação
se encontra mesmo na margem. Por isso, nada é
maior e prioritário para nós. Preferimos o menor,
o individual, o infmitamente especifico: só atin¬
giremos o todo se partimos da- partícula menor, a
mais individualizada, onde a espécie está se
refletindo, criando raizes (não é mesmo,
Emanoel?). Isso eu chamo de POLÍTICA ME¬
NOR.
E dir£o: que programa pretensioso. UTÓ¬
PICO. Sim, se quiserem saber, somos filhos de
ninguém, enxotados de Cuba e dos Estados
Unidos. E, como órfãos, habitamos a UTOPIA,
terra dos sonhos possíveis. Porque nós os mi¬
nimizados nâo temos outras chances. Ou esco¬
lhemos o novo, ou morremos no mesmo túmulo
dos conchavos e competições. Tentar outros
parâmetros, ali onde eles são inesperados e am¬
bíguos — uma grande surubg para solucionar
uma grande briga. Desconcertar para investir
contra p poder que criou essa ÓRDEM. Opor -se a
uma política manobrista, baseada em hege¬
monias, inclusive da classe proletária. Recado: a
classe operária é sim um dos agentes de transfor¬
mação social — no caso, ela impulsiona a trans¬
formação econômica. Mas como não aceitamos o
pressuposto de que a transformação econômica
seja a única, nâo queremos a hegemonia de uma
suposta classe revolucionária. Porque inclusive
trata-se ai de um conceito vago que os intelec¬
tuais, tecnocratas e cientistas políticos criaram
para, dizendo-se representantes da sacralizada
classe operária, legitimarem o seu poder. Não foi
o que aconteceu na Revolução Soviética? Um
partido se apropriou da definição de proletariado
e, manipulando-a, tomou o poder e se apossou
das demais definições; então, os dirigentes de¬
finem como louco quem divergir deles. Hoje, seus
sindicatos sâo apenas novos instrumentos de con¬
trole social: como se supõe que a classe proletária
já chegou ao paraíso, operário não pode recla¬
mar.
Desmistificar a hegemonia transformadora do
proletariado significa quebrar os limites e colocar
como agentes de transformação também os
loucos, os velhos, as crianças, a luta ecológica, os
índios, os negros, os homossexuais, as mulheres,
as pulas — enfim, todos aqueles blocos de es¬
pecificidades que caminham contra a corrente.
Isso irá dificultar as formas hegemônicas, o con¬
trole do poder por uns poucos. Pois é mais fácil
controlar uma classe revolucionária do que cen¬
tralizar dezenas de blocos de transformação e
apossar-se de tantas definições divergentes. Então
quero desafinar, passar os parâmetros da política
para a margem: ficar pelado nas reuniões sérias,
destampar nossas mais recônditas fantasias, des-
programar-nos sexualmente (a promiscuidade
como elemento subversor), lutar junto com as
classes proletárias pelo seu direito ao prazer, e
não apenas ao trabalho.
oivÍdÍoRA ° HERÔ1' A POES,A 00 ,N‘
Pensar em formas subversoras de política sig¬
nifica subverter a própria subversão, aquela que
se institucionalizou dentro e fora de nós; chega de
modernizar o discurso das esquerdas patriarcais,
que buscam recuperar os homossexuais, às causas
partidárias. Exercer a critica aos partidos en¬
quanto manipuladores e doutrinários, agentes de
falsas promessas democrática' . G>mo crianças,
balbuciar de novo as primeiras palavras, órfãos
que somos. Não há salvação no herói /patrono,
seja ele Lenin, Trotsky, Bakunin, Papa ou Lula.
Enquanto transarmos à base de heróis, haverá
dogmas; e dogmas exigem militância, cruzadas,
guerras pelo poder.
Contra isso, as formas de realizar UTOPIA
talvez se encontrem em nós mesmos: desenvolver
portanto cada um de nós, com nossas mais
profundas especificidades de seres únicos. Partir
de nossas individualidades para transformar —
porque só somos verdadeiramente proprietários
de nós mesmos. Dai, ser o indivíduo subversão à
vista: nossa infinita variedade impulsiona uma
invenção contínua e exige o novo. Então esta¬
remos colocando imaginação, mistério e ambi¬
guidade na política, considerada terreno da ciên¬
cia. E inseriremos nosso corpo, cabeça, conceitos,
quotidiano, a loucura de cada um no turbilhão
das transformações. E como a individualidade é o
terreno do improvável, estaremos ãcJentrand* o
universo da poesia onde, ao contrário da militân¬
cia, tende-se a abolir a doutrina e a normalidade.
Resta encontrar nossa perdida poesia: talvez num
vago gesto desmunhecado ao dobrar a esquina,
no bilhetinho descabelado de paixão abandônica,
no traje cafona da bi chita orgulhosa de estar
falando em público, na peruca velha que o traves¬
ti ganhou (ou roubou?) da patroa, nos fins de
semana dormindo em grupo como as lésbicas, na
fantasia de trepar com o pai ou a mãe, nas tantas
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GRUPODIGNIDADE
| FESTIM f
Homossexuais de toda a Europa e América do
Norte participaram em Amsterdam, entre os dias
15 e 20 de abril passado, do ‘Mannen Nietwaar"
(Homem, não é mesmo?), um festival de artes
homossexuais promovido pelo mais antigo grupo
de ativistas da Holanda, o Rode Fllkken (Bichas
Vermelhas). E um fato curioso que envolveu a
realização do evento: depois de muito bate-pé e
choraj ingos os organizadores receberam um
auxilio de 8. 500 dólares do governo holandês (17
mil florins).
Durante cinco dias, as cinco mil pessoas que
tomaram parte da vasta programação — filmes,
peças teatrais, recitais de poesia, performances,
shows musicais — entre homossexuais e heteros¬
sexuais, colaboraram conscientemente ou não,
para cumprir com o objetivo primeiro pretendido
pelos Flikkers. ou seja, a desmistificação do ter¬
mo ‘Ttomossexual” sempre ligado a idéia de
opressão.
Mesmo com todo o alarde feito em torno do
evento — alguns jornais holandeses, como o do
Partido Comunista, por exemplo, chegaram a
publicar matérias de página inteira — os orga¬
nizadores do evento não se deram por satisfeitos,
já que algumas das metas pretendidas com a
realização do Mannen Nietwaar não chegaram a
ser concretizadas.
Ruud Plocgmakers, da comissão organiza¬
dora do evento, um holandês cortês, como todos
os seus conterrâneos, e que fala fluentemente o
português após três anos de estudos de nossa lín¬
gua na Universidade de Amsterdam, concordou
em receber o "Lampião" logo após o encerramen¬
to do evento, e falou sobre as idéias do grupo e a
questão homossexual em seu pais.
Plogmakers explicou que a promoção não teve
caráter de luta política, mas sim, foi efetivada
para chamar a atenção para as "nflo- verdades",
que têm sido responsáveis pela opressão que
acompanha psicologicamente indivíduos do mun¬
do inteiro, e que os faz assumir a posição de
‘Ttomossexual" perante a sociedade.
ARMA
Para isso, os Flíkkeri se utilizaram da síntese
de um estudo, considerado "histórico", e que vem
sendo desenvolvido por professores c alunos da
Universidade de Amsterdam, a pedido da revista
Homotogle, e com base nas idéias de Foucault:
"A homossexualidade é uma viatura, e de mais a
mais, os homens rolam rapidamente....'*
"Ê uma teoria relativista, salientou Ruud.
através da qual se pretende terminar com o mito
da 'homossexualidade eterna, comparando os
criadores do termo "homossexualismo" aos en¬
genheiros e inventores do automóvel, da tampada
elétrica ou do avião."
O que os Roote Fllkken querem, em outras
palavras, após realizarem anos de estudos e pes¬
quisas sobre obras de autores de várias nacio¬
nalidades — da linha de Freud á Hirschfeld, é
mostrar que o termo 'Tiomos sexual" é uma in¬
venção como o automóvel, surgida no final do
século passado, e cuja tendência com o decorrer
dos anos é de "esvaziamento", ou desapareci¬
mento; assim como aconteceu com o uso da
"sodomia" hoje praticamente esquecido ao
voc a bu lário cor re nt e .
O tema "A Homossexualidade e a Invenção
do Automóvel" deveria ter se constituído como a
principal atração do Mannen Nietwaar. En¬
tretanto, as dificuldades financeiras enfrentadas
pelos Fllkken holandeses, obrigaram-nos a
modificar a programação original, culminando
com a suspensão do convite a ser efetuado À vários
escritores e estudiosos europeus, que partici¬
pariam de um painel espositivo sobre o assunto.
Os organizadores do evento alegaram que a
principal causa desse insucesso residiu na omis¬
são do governo holandês para uma promição de
tal nível. Há um ano, desde que iniciaram os
preparativos, os Fllkken vinham pleiteando uma
considerável verba junto ao Tesouro holandês, da
ordem de 100.000 dólares (200.000 florins). En¬
tretanto, sempre alegando a existência de uma
crise financeira, o governo negou e auxilio, cujo
pedido já havia sido restringido a 20 mil dólares
numa segunda tentativa. Talvez temendo uipa
desmoralização, dois dias antes do inicio do Fes¬
tival, um alto funcionário do Ministério da Fa¬
zenda telefonou aos Fllkken, confirmando a úl¬
tima decisão do governo — dezessete mil florins
(Cr J 450 mil aproximadamente).
Nesta luta, os FHkkeri contaram com o apoio
do parlamento holandês, especialmente do líder
trabalhista Voggd, que juntamente com outros
deputados, foi um dos principais incentivadores
do protesto feito pela delegação holandesa junto à
Comissão de Direitos Humanos do Parlamento
Europeu de Strasbourg, contra a discriminação
LAMPIÃO da Esquina
Amsterdã:
Bichas
Vermelhas
Promovem
a Festa
MÃO HOUVE
Re PttESSAO DA
PoUaA NO
PAVILHAO
tfELKWBS.
sAí
da legislação da América do Norte ao ingresso de
homossexuais no pais como imigrantes O fato foi
motivo para uma manifestação das bichas holan¬
desas em frente à Embaixada Americana
em Amsterdam, e também do Parlamento Eu¬
ropeu junto à sede das Nações Unidas em Ge¬
nebra.
POSIÇÀO
Os Rooèe Flikkers, a exemplo de outros
grupos de homossexuais holandeses, possuem
forte influência junto ao parlamento holandês.
Fundado por um grupo de dez dissidentes do an¬
tigo CC — Culture en Anipannings Centram
(Shakespeare Club, fundado em 1959), era con¬
siderado até há pouco como um dos mais radicais
grupos de homossexuais da Holanda.
Eles foram os primeiros a levarem as bichas
para as ruas em passeatas de protesto contra a
repressão, e chegaram a ter problemas com a
política, respondendo com êxito a um processo
judicial numa cidade do norte do pais. Também
foram os responsáveis, durante dois anos; pela
publicação de um jornal intitulado ‘Mletje Plet-
Je" (tradução equivalente a Pederastas Traves-
tidos, nome surgido a partir da forma de protesto
público que promoviam, e termo pejorativo
utilizado popularmente para os homo holan¬
deses).
Segundo Plogmakers, hoje os homossexuais
da Holanda estão presentes em todos os setores da
sociedade, e todos os partidos políticos, incluin¬
do-se o Liberal, que é o partido do governo, pos¬
suem suas facções homossexuais organizadas .O
O Partido Comunista também possui o seu grupo
homo.
Para a divulgação do Mannen Nietwaar, por
exemplo, os Flikkers contaram com o apoio dos
três principais jornais do pais, incluindo-se o NR -
C-Handebblad de Rotterdam, o de maior cir¬
culação, e o órgão do Partido Comunista Holan¬
dês.
PROGRAMA
Apesar do desfalque na programação, o Fes¬
tival Mannen Nietwaar teve atrativos importan¬
tes, como a apresentação do primeiro filme gay do
mundo, rodado em 1919, sob a direção de Ri-
chard Oswald e a participação, como ator, do
psiquiatra e autor homossexual Magnus Hirs¬
chfeld. O empréstimo desta obra, de propriedade
de um Museu de Berlim Oriental, foi possível
graças ao empenho do Ministério dos Assuntos
Exteriores da Holanda em favor dos Flikkers.
"Diferente dos Outros" (Anders Ais Die An¬
dem) é o título da obra. Foi rodado em Berlim, —
considerado o laboratório da Europa na divul¬
gação do homossexualismo no início do século,
com o objetivo de fazer publicidade em torno da
questão, e para mostrar claramente o início de
um processo de repressão que nasce com o adven¬
to das idéias nazis. O filme é mudo e tem legen¬
das em ucraniano.
Ele conta a história de um violinista homo que
se apaixona por um aluno e acaba por suicidar-se,
quando sua relação é descoberta por um amigo
que passa a lhe fazer uma série de chantagens.
Seu companheiro, desolado, tenta igualmentc o
suicídio, momento em que entra em cena o doutor
Hirschfeld incentivando-o a usar a morte de seu
companheiro como "bandeira de luta" para
divulgar o homossexualismo e colaborar para a
sualibcçaçãç pç pais.
Da programação de filmes, também foi «-
presentada uma obra de Derek Jarman inti¬
tulada Sebastianne, com narrativas em latim, e
que tenta provar que São Sebastião era homos¬
sexual. O filme, de procedência ngfcsa. tc\e ce>
nas rodadas na Sardenha e data de 1976. Jun¬
tamente com a película alemã foi um dos grandes
sucessos do festival. Apareceram ainda Nl-
ghthawks, de Ron Feck, rodado na Inglaterra em
1978, com a participação de Paul Hallant; Du Er
Ikke AJene-Je Bent Niet Allen, obra dinamar¬
quesa, de 1978, dirigida por Lasse Nielsene Ernst
Johansen; Tiergaerten, • de Loihar Lambert,
rodado em Berlim e apresentado em avant-
premiére, e Nous fctions Un Seul Homme, de
Philippc Vai lois, rodado na França em 1979.
MÚSICA, POESIA, TEATRO e LITERA-
TUA
Na área musical, ganharam destaque os shows
do cantor gay francês Laia, que já participara em
1978 do Festival de Filmes Gays "Gluren in Het
Donker", também promovido pelos Fllkken com
a apresentação de cerca de 80 películas, e os Sof-
ties, músicos que pertencem ao grupo promotor
do evento, e que apresentaram um musical teatral
intitulado 'Stad Shock Mannen".
No Teatro, as variedades foram muitas, do
sério à chanchada, com destaque para a comédia
do escritor belga Conrad de Trez: ‘Tante Trouth
uit Bdhitc". A obra de Trez é bastante conhecida
na Europa, c é num de seus livros que ele conta a
descoberta de sua homossexualidade durante um
carnaval no Rio. Robert Paírick, pivô do recente
episódio sobre a legislação americana, dirigiu a
peça T-Shirts.
Sobre Patrick, que hoje é naturalizado holan¬
dês. sabe-se que foi quem protuoou todo o protes¬
to do parlamento europeu junto às Nações
Unidas, já citado anteriormente. Segundo conta-
se, ele dirigiu-se a Embaixada Americana na
Holanda, acompanhado de um grande número de
repórteres dos principais jornais do pais, e exigiu
um visto de entrada nos Estados Unidos para
visitar familiares. O visto foi concedido somente
após o movimentado protesto que envolveu os
políticos holandeses. .
Voltando ao Mannen Nietwaar, bastante
aplaudido? ainda pelo público, que lotou sempre
as salas de espetáculos, o étaw de Koos Dalstra.
holandês que relaciona a existência dos porcos á
dos homens; a performance do israelense Hezy
t^Uu fitar Wairi.. onrlr otiUca o &om como
símbolo energético numa sala totalmente ás es¬
curas, e o trabalho de um grupo inglês, que
utilizando-se do público como cenário, tenta
mostrar a repressão policial em Londres.
Na poesia ganhou destaque a obra de Kaváfis,
declamada por homossexuais holandeses. Tam¬
bém foi promovida una noite de autógrafos, com
o lançamento da primeira coletânea de autores
homossexuais holandeses, editada pela Uitgeverij
Blaauw, sob a coordenação de Gert Hckma,
membro dos Rooie Flikkers. A obra se intitula
Mannenmaat — Rekenboek voor jongens zonder
meis jes (Medida, Homem de Um Livro de
Matemática para moços sem moças), e reúne 18
autores, entre contistas, cronistas e poetas .
Além disso, varias Gayshopps foram insta¬
ladas no pavilhão do Melkweg, onde se realizou o
evento, com a venda de livros, revistas, decalcas,
posters, cartões postais, distintivos, jornais,
slides, enfim, todo tipo de material consumido
pelos participantes.
Reduto do movimento underground na última
década, o Melkweg se localiza no centro de Ams¬
terdam, onde antigameme funcionava uma an¬
tiga "usina de leite", hoje transformada em várias
salas de espetáculos. E o Mennen Nietwaar, ali
realizado, serviu também como momento de con¬
fraternização para homossexuais e heterossexuais
de toda a Europa c América .
No recinto desse centro de artes da Praça
Leidsplein, onde viu-se todo tipo de gente — do
turista alemão, ao hippei decadente ou ás bichas
travestidas — muita comida, bebida, dança e
frescura rolou nos cinco dias de festa incessante.
E o mais importante é que em nenhum momento
se notou a presença de repressão policial, mesmo
considerando que a Gentral de Polícia da capital
holandesa localiza-se em frente ao prédio do
teatro.
Nem mesmo na madrugada de segunda-feira,
dia 21, quando após ter o público dançado o úl¬
timo rock do evento, um grupo de punks demolia
e pichava um automóvel estacionado à porta
principal do Melkweg, em protesto pelo final da
música. (Renato Schebela — Amsterdan )
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da parada da diversidade
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Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
| ENSAIO | -
%
Começam a nos entender .
Mas é isso o que interessa?
Algumas noticias chegam ao Lampião por
tabda. Via carta de um amigo, tomo conheci¬
mento de um fato carioca que devidamente
anotado, volta à nossa redação situada na Lapa,
portanto no coração do Rio de Janeira dia 14 de
abril, o Dr. E. Crístian Gauderer, especialista em
psiquiatria do adolescente, com doutoramentos
nas Universidades de Harvard, Tennessce e na
Clínica Mayo, realizou palestra na Faculdade de
Comunicação Estácio de Sá. sobre o tema
“Homossexualidade masculina e lesbianismó*. O
amigo, que assistiu (e gostou da conferência), fez
questào de resssaltar na carta, a imparcialidade
do conferencista “apesar de ser hetero”. E aqui
começam os senões: — O que é isso. meu querido
amigo, só porque uma pessoa é hetero deve ser
contrária ao homossexualismo? Anexa à carta,
recebo uma súmula da mesma com a autorização
ao Lampião para transcrever tudo ou parte.
Outro senão: o Lampião não se vincula ex-
elusivamente aos homossexuais e demais re-
presentantes das outras minorias, mas está longe
de ser um vinculo da divulgação cientifica pura e
simples, mesmo que o tema seja o nosso, pre¬
ferindo manter-se como um jornal de atualização,
participante das vivências, fdéias e atividades
minoritárias e. mais particularmente, um ca¬
talisador de opiniões e vivências homossexuais.
Assim senda os conceitos cientificas sobre ho¬
mossexualismo. mesmo quando imparciais, bem
documentados e devidamente atualizados, co¬
locam -se de tal forma dentro de uma lógica
habitual de laboratório que nós. os homo
conscientizados, nunca os podemos aceitar na
totalidade porque possuímos a nosso favor (e com
um acréscimo indiscutível) a convivência Intima
com o assunta com a qual dialogamos de ma¬
neira aberta, coisa que nenhum cientista hetero.
mesmo o mais esforçado entre os esforçados,
jamais conseguiu até hoje.
Isto quer dizer então que relutamos os latos
que a tradição científica colheu durante anos e
anos sobre o nosso “problema*’? Positivo: re¬
futamos, sim! E dai? Nunca pudemos e não
podemos ainda hoje impedir que nos olhem do
outro lado. isto é, do lado de fora da jaula; e que à
maneira “deles" nos analisem. Agora, esperar
que apesar disso nós nos comportemos segundo as
conclusões que eles tirem de nós... ah!, isso não!
Este desabafo, uma espéde de lavagem intes¬
tinal que o Dr. Gaurderer indiretamente está
recebendo da minha pessoa (sem qualquer culpa
da sua parte e apesar de toda a boa vontade que
tem com os homossexuais) advém do fato de que
jamais se obtêm bons resultados, mesmo com
ótimas intenções, quando os conceitos partem de
prindeipios errados. Também nesse sentido
temos em São Paulo um caso típico de enganador-
enganado. na pessoa do atento e respeitado es¬
tudioso da sexualidade, o Dr. Flàvio Gikovate:
tratando do homossexualisma ele nega o fator
oongênito para desandar as culpas do “proble¬
ma’’ sobre fatores de formação familiar e outros
quantos. Não concordo nem discordo, entenda-se
bem, apenas me recuso a aceitar que tratem o
homossexualismo como um" problema* ou como
um desvio da sexualidade.
Lendo o artigo- palestra do Dr. Gauderer. vejo
logo no início o conceito de Freud de que “o
homossexualismo é encontrado em pessoas que
não mostram desvios de normalidade e cuja
eficiência de funcionamento é completa e( que es¬
tes) muitas vezes, são indivíduos privilegiados no
desenvolvimento intelectual e cultural”. Ora, já
dizia a minha bisavó, “nem tanto o céu, nem tan¬
to a terra”! E logo vem o bloqueio para qualquer
discussão quanto se flagra que ele “Freud”, in¬
conscientemente (Freud. inconsciente?), ao dizer
isto. estava assumindo uma atitude paternalista
em relação aos homossexuais, portanto protegen¬
do os seus indefesos e frágeis pacientes das intem¬
péries da sociedade opressora. Dá pra perceber a
trama? Apesar desta ser sutil e plena de boas in¬
tenções. não se pode esquecer que Freud era
hetero. e é bastante sabido que os heteros, prin¬
cipalmente os inteligentes e cultos, assumem
frequentemente essas atitudes paternalistas a fim
de se penitenciar pelo que a humanidade tem
feito contra os homossexuais.
Ora, contesto eu como advogado do diabo, è
uma besteira enorme achar que a maioria dos
homossexuais (ou “muitas vezes”, como diz
Freud) seja de “indivíduos privilegiados no de¬
senvolvimento intelectual e cultural". O que tem
a ver a opção sexual oom inteligência e cultura?
Claro que existem bichas inteligentes e cultas,
mas nem por isso elas precisam se vangloriar de
ser maioria na própria classe ou em relação aos
heteros: já conheci muitas e muitas que não têm
jeito nem inteligência para enfiar sequer uma
linha numa agulha! - —
Portanto, o paternalismo é um prindpio
igualmente comprometido, como vários outros,
para um entendimento da homossexualidade,
porque prevê em si um sentimento de comise¬
ração. camuflando a eterna jogada do dominador
sobre o dominado. E isto a nós, homossexuais,
absolutamente não interessa mais! É preciso
deixar bem claro também, que a análise científica
atual feita sobre a nossa opção sexual não nos
perturba nem nos acrescenta nada, a nós homos¬
sexuais conscientizados, porque a nossa cabeça, a
partir do momento da conscientização, já superou
traumas, sentimentos de culpa, auto-negações e
toda aquela baboseira mental de que os psica¬
nalistas insistem em nos curar; e já partiu igual¬
mente para coisas bem mais sérias c práticas,
como a nossa definição pessoal e coletiva como
integrantes de uma sociedade, ou a conquista
consequente do nosso espaço vi vendai.
Assim sendo, os heteros é que devem final¬
mente começar a conjugar o verbo aasnmlr (tão
propalado, atualmente) e não nós, que há séculos
estamos tentando a aproximação, sem resultados.
Não fomos nós que inventamos os tais prefixos
hetero e homo — foram eles os heteros que assim
o fizeram para defender sabe-se lã quais prin¬
cípios de sobrevivência e supremacia. Se eu fosse
uma dessas muitas bichas inteligentes porém
malditas que circulam por ai. diria que dormimos
no ponto: essa imposição de um sistema heteros¬
sexual foi circunstancia], uma espéde de golpe
poli tico de tomada de poder, o jdto foi aceitá-lo
inoondidonalmente porque, coroo sempre acon¬
tece nesses casos, montou-se paralelamente um
esquema de repressão chamado machismo, para
impor, proteger e manter o poder dominante. A
Bíblia está aí, contando tudo em detalhes. . .
Entenda-se que não è minha intenção ser
proselitista, pregando a inversão dos papéis, isto
é. segregando os heteros para impor padrões
homossexuais no mundo. Desejo, isto sim. e bem
menos pretensiosamente, fazer válida a nossa
normalidade — mas que ela nos venha por di¬
reito. não obsequiada como numa abertura
política, na forma de uma concessão piedosa ou
como prêmio de bom comportamento, anteci¬
padamente exigido como ocmdição para a liber¬
dade. Se assim for cumprido, estaremos de ambas
as partes em boa paz e esquecidos dos tais pre¬
fixos estigmatizantes.
Padrões morais... Mas o que é um padrão,
afinal de contas? Em termos de engenharia
mecânica ê o molde dentro do qual fundem-se as
peças, todas iguaizinhas. e previstas para deter
minada função dentro da máquina. Acontece no
entanto, que os ditos padrões, além de se desgas¬
tarem pelo uso excessiva precisam ser modifi¬
cados, renovados e modernizados em benefício da
própria máquina e sob o perigo desta tornar-se
antifuncional. antiquada e obsoleta.
Já fui bonzinho na vida procurando ser to¬
lerante oom a intolerância ea burrice alheias, jul¬
gando essa incompreensão como falta de infor¬
mação. Em parte é, mas cansei de "panos quen¬
tes” e resolvi partir para o radicalismo mais
radical: mesmo tentando ser compreensivos, os
heteros jamais aceitarão como tal. a nossa opção
sexual e a nossa cultura específica, enquanto
tomarem a>mo ponto de partida a sua conoei-
tuaçâo de valores. Para qualquer tentativa de in¬
tegração minoritária é necessário o abandono
completo dos padrões estabdeddos pelo sistona
dominante, tanto de uma parte como da outra.
Daí os comentários que eu poderia e pretendia
fazer sobre a palestra do Dr. Gauderer e sobre os
vários artigos de Dr. Gikovate, publicados se¬
manalmente na "Folha de São Paulo”, ficarem a
priori invalidados, porque mesmo oom a serie¬
dade e possível isenção com que eles tratem o
homossexualismo io que de certo modo é relevan¬
te porque finalmente os dentistas começam a nos
ver como gente, não mais coroo coelhinhos de
laboratório), suas idéias e conceitos, todos ba¬
seados em estudos atualizados, etc., etc, con¬
tinuam naquela do de (ora para dentro e. o que é
pior, subservientes aos padrões do sistema.
A nova oontc&ncia bomoascxual, aquela que
não está plasmada nos padrões convencionais, r+
mesmo em países mais liberados e avançadas cul¬
turalmente que o nosso, fez recentemente o seu
"début”? Ela está surgindo dos grupos de cons-
dentizaçào, dos ternários discutidos nos Encon¬
tros e Congressos e dos elementos individuais que
superaram as imposições do sistema tradidonal.
Talvez nem sejamos nós. os desta geração univer¬
sal dos anos 70. ou desta geração brasileira do
ano 80 que participou do I Encontro Nadonal de
Grupos Homossexuais, os que estarão liberados e
conscientizados o sufidente para escrever a nova
Bíblica. Talvez só mesmo os nossos filhos (filhos?)
terão o distandamento temporal e a experiência
necessárias. Dos resultados dessa vivência os
heteros poderão então, finalmente, retirar as in¬
formações mais verídicas. “ dando aos bois os seus
nomes verdadeiros” — porque até agora não só
estes tiveram os nomes trocados, como foram
confundidos com cabras, cavalos, zebras e até
rinocerontes.
Nomes, prefixos, definições, dassificações...
Mas será isto o que interessa? O que influi no vòo
de uma borboleta azul se em vez. de borboleta, os
estudiosos a chamarem de“Lepidóptero Morpho
Anaxabia”? ( D arcy Penteado)
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I FESTIM \
Bixórdia II - o show
Verushka, a do Fusca
Adão Acosta, Chqgsóstomo, Elke, Mário Valle.
Ficou decidido na reunião de
pauta que eu escreveria a matéria
sobre o show de aniversário do jor¬
nal; o “Bixórdia IP\ pelo qual os
lampiônicos esperaram o ano inteiro.
Mas a verdade é que eu perdi o
tesão, depois de ver as ótimas fotos
dc Cyntia Martins, a quem coube a
cobertura fotográfica do evento
(cruzes!). Basta dizer que o Teatro
Carlos Gomes, cheio de amigos e
amigas do jornal, parecia a sala de
estar de uma enorme família: todo o
mundo numa boa, muitos beijos e
abraços, muita gente se cruzando
nos banheiros e nos desvãos mais es¬
curos do teatro, e muita emoção no
palco, dos artistas que foram lá, na
base do amor e da amizade, dar uma
palinha em homenagem ao
LAMPIÃO. Vejam as fotos: foi O
SHOW. ( Aguinaldo Silva)
O grupo Amalá
Bittencourt e Bubby Montenegro
Duardo Dusek
Emilinha Borba
Maria Leopoldlna
LAMPIÃO d
«II JKJUU UJ Ullll JIJHI | ■— «7 . . .
.cobarJíS te *000 j 1 *• - - - ^ ^ 1 Página 13
ítf Juooji ob OÀ^MAj
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1 ESQUINA \
Notícias da Bahia
Para o turista que vem ao Brasil para passar o
Carnaval c curtir o verão tropical, Salvador cos¬
tuma ser apontada como a cidade mais gay do
Brasil. De fato, durante o Gamava), a Bahia se
torna a capital gay não aperias do Brasil, mas do
mundo inteiro. Alguém poderia indicar um local
da terra (o céu não vale) onde se concentram
anualmcntc maior número de homossexuais do
que a cantada em prosa e verso Praça Castro Al¬
ves durante os quatro dias da folia? Quantos
seriamos: mil, dois mil, quantos mil? Creio que
nem mesmo os congressos c encontros gays na¬
tivos ou dalhures contariam com tamanha quan¬
tidade de homossexuais, e no tocante à procedên¬
cia geográfica (pois como é do conhecimento
geral, à “Praça do Povo” convergem, além dos
baianos da capital e do interior, inúmeras ca¬
ravanas de homossexuais sergipanos, alagoanos,
cariocas, paulistas, gaúchos, etc., sem falar nos
gringos, notadamente norte-americanos, fran¬
ceses, alemães, ingleses, and so on). Passados os
quatro dias onde a CARNE -VALE, dias em que
as bichas tomam conta do local mais animado e
desvairado da maior festa popular baiana, o que
resta como saldo positivo para o movimento gay
da terra de Betânia, Simone, Gil, Caetano? As¬
sim foi a quaresma anos seguidos daquela que
durante o Carnaval se torna a “Bahia de todas as
Santas”. Tudo voltava a ser como antes.
BICHA TAMBÉM PICHA
Salvador, aliás, como a maior parte das gran¬
des cidades do Brasil e do mundo, foi invadida
nos últimos meses por uma onda de pichaçôes de
rua, assinadas por diferentes autores: Mancha,
Tirana, Min, Dr. Pénis, ML, Balde-Ação, pan,
etc. O conteúdo das mensagens pintadas nos
muros e paredes variando da anarquia pura e
simples, à crítica social, política, existencial,
ecológica, etc. Destes, o que se assinava “ML",
foi sem sombra de dúvida, o mais engajado
politicamente, o mais criativo, libertárioe crítico.
(“ML" para alguns significa “Movimento de
libertação”, para outros “Muito louco", para
outros ainda, ‘Massas Livres"). Entre suas men¬
sagens, várias vezes pintou: "viva o sexo". Por
volta de setcmbro/79, um novo pichado aparece
no cenário soteropolitano — seu nome: GAY. O
palco escolhido para o seu “début" foi nada
menos que os muros amarelinhos do tradicional
Instituto Feminino da Bahia. Seu cartão de visita:
“Cheguei: Sou GAY!" Após esta mensagem,
muitas outras, em diversos locais bastante visados
da cidade. Eis alguns dizeres assinados por GAY :
Ê legal ser homossexual! Viva o Sexo! Ser viado
nâoé pecado. Seja Gilete; aproveite os dois lados.
No Teatro Castro Alves, um dos pontos mais
badalados de encontro da população gay local,
além do leitmotiv “Cheguei": Sou Gay”, picha
um discurso mais político: 'í legal ser homos¬
sexual, a história não mente: experimente!” Na
entrada da Concha Acústica, Gay divulga o
célebre versinho de Fernando Pessoa: “O amor é
que é importante, o sexo, acidente. Pode ser
igual, pode ser diferente..." Na Fazenda garcia,
bairro de grande concentração de população
negra, Gay assina outra pichaçãode teor político,
unindo-se à luta maior: “Negros, bichas, índios,
mulheres, pobres: estamos na mesma luta!” No
porto da Barra, praia onde se concentram se¬
manalmente centenas de homossexuais, de todos
os sexos (inclusive o sexo dos anjos), num local de
grande visiilidade, mais duas mensagens: ‘Bichas
de todo o mundo, uni-vos!" ‘Território homos¬
sexual! Liberdade total!"
As reações não tardaram a aparecer: vários
muros onde Gay deixou sua mensagem foram
rapidamente pintados de branco, apagando-se do
dia para a noite propaganda tão inusitada. A
boca-pequena comenta-se que um pai -de -família
mais esquentado chegou a atirar de revólver em
Gay quando, executava num muro bem alvinho,
uma das aias. Nalguns lugares, outros pi ah adores
encarregaram -se de alterar ou comentar as men¬
sagens homossexuais. No Farol da Barra, p.ex.:
um pichador anónimo (e careta) inverteu a men¬
sagem original acrescentando simplesmente um
“i” à palavra ‘legal”, alterando portanto para “Ê
ilegal ser homossexual". Com um pouco de mais
imaginação, porém numa atitude ideológica dis¬
cutível, o grupo “punk" Pan alterou várias as¬
sinaturas do GAY para Fi-Gay-redo, não bulindo
porém no texto das mensagens. No Instituto
Feminino da Bahia, o Grupo ML pichou ao lado
do “Cheguei, sou Gay”, os seguintes dizeres:
“Dá-lhe 3? sexo!" No muro da Qa. de Eletri¬
cidade, o mesmo grupo acrescentou abaixo dos
dizeres *£ legal ser homossexual", o comentário:
“Chi... que pobreza”. Mais recentemente, nas
imediações da Barra, surge um novo pichador in¬
titulado: *T)r. Ku" que além de pichar nos muros
que outros pichadores (como o mancha, p.ex.)
eram gays. numa deslavada falta de imaginação
parafraseou o gay original, escrevendo: “Cheguei,
sou anti-gay, ass. Dr. Ku”.
A onda de pichaçôes parece ter-se amainado
neste últimos meses. Alguns grafitis foram
apagados, outros cobertos com cartazes e pro¬
pagandas. Vários, entretanto, continuam in¬
deléveis, resistindo ao tempo, prestes a completar
seu primeiro aniversário de fechação. Chocando,
forçando as pessoas a pensarem, suscitando
polémicas. Aliás, não teria sido inspirado exa¬
tamente nas pichaçôes de Salvador, que a Gay-
fieira Palace do Gne S. José, no Rio, deu como
titulo de seu show extamanete “Cheguei. Sou
Gay"?!?! Aproveito para enviar um recadinho
para o publioirelatious do show da praça Tiraden •
tes: em recente entrevista os pichadores GAY
declararam abrir mão de cobrar os direitos au-;
torais pelo uso de seu slogan, cm favor, do fondo
de greve dos trabalhadores do ABC. Os leitores
que forem à Gayfieira Palace não deixem de lem- *
brar à “troupe" que eles tém um compromisso
com o ABC. . .
BICHAS BAIANAS RODAM O MIMEÔ-
C.RAFO
Muitos homossexuais baianos além de “rodar
a baiana" tem-se preocupado ultimamente em
conscientizar a população gay local para que en¬
trem na luta contra todas as formas de discri¬
minação aos homossexuais. Recém-fundado, o
Grupo Gay da Bahia resolveu sair às ruas, con¬
clamando todos os homossexuais a se organi¬
zarem em grupos que lutem em defesa de nossos
direitos de pessoas humanas que não tém nem
medo nem vergonha de amar pessoas do mesmo .
sexo. “I uta para a gente poder existir".
Distribuímos aproximadamente mil docu¬
mentos. concentrando-nos sobretudo nos locais
de maior badalaçáo homossexual de Salvador:
Porta do Teatro Castro Alves, Beco dos Artistas,
Bar Oásis, Nildau, Boites Safar i e Holmes. No
domingo de manhã, no ensolarado Porto da
Barra. A pan fiei agem, felizmente, transcreveu
sem incidentes — o que era de se esperar, dado o
teor legal do manifesto, e a proteção de legiões de
Orixás, Santos e Santas do panteão gay do
além... Favoreceu -nos, igualmente, e vivermos
em “tempo de abertura"... O depoimento de
mais de uma dúzia de gays que participaram da
panfletagem foi unânime em revelar três aspec¬
tos: — No geral houve excelente receptividade dos
homossexuais contactados ao documento. Após
rápidas leituras do texto, foram diversos os
homossexuais, homens e mulheres, que manifes¬
taram de imedjato sua vontade de fazer parte do
grupo. — As criticas recaíram sobretudo no
cabeçalho do texto, onde propositadamente,
resolvemos “dar o nome aos bois", ou melhor , aos
viados, enumerando vários “palavrões" classi-
ficatórios dos homossexuais: ‘Bichas , sapatões,
gays, viados. lésbicas, entendidos, bonecas, fran-
chonas, pederastas, giletes, enrustidos, travestis,
entendidas, etc." Quem chiou mais forte foram
sobretudo os mais enrustidos e as bichas mais
chies. Onde já se viu um “entendido ativo"
(cruzes!) ser chamado de “viado", estar citado áo
lado de um “travesti” ou de uma "franchona"?!?
Teve bicha que deu revertério, pichou o Grupo,
escomungou o documento, profetizou a chegada
do fim dos tempos. Tudo isto apenas pelo choque
de ver num “documento", lado a lado, termos
“científicos" e “palavrões" vulgares. O objetivo
do grupo foi exatamente este: provocar discus¬
sões. Mostrar para quem ainda não se deu conta,
que quanto mais usarmos tais “palavrões" mais
rapidamente eles envelheceriam, deixando de ser
tabu. Além do mais lembramos aos esquecidos ou
elitistas, que homossexual é todo aquele que gosta
do mesmo sexo, seja bicha pobre da periferia, o
travesti desdentado do Pelourinho, a boneca Car-
tier do Holmes, o entendido rançoso do La
Boheme ou o ‘Bi -sexual" (última descoberta da
VEJA para pasmo do Dr. Freudí) do Porto da
Barra. Achamos que a diferença no estilo de vida
não deve implicar desnecessariamente em dis¬
criminações, em desigualdade de direitos. Afinal:
somos ou não somos todos, sem exceção, imagem
e semelhança de Deus, templos do Espírito Santo
(aliás, diga-se de passagem, este último senhor
tem a fama de ser a mais quente da Santíssima
Trindade — imaginem que já apareceu sob a for¬
ma de língua de fogo — tá na Bíblia). — A última
observação é de caráter pessoal, existencial . Veio
como se fosse um prémio a sensação de liberdade
e segurança advindas do fato da gente se iden¬
tificar e ser identificado como homossexual por
aqueles desconhecidos que receberam o docu¬
mento. Foi emocionante ouvir.de vários homos¬
sexuais palavras de apoio e estímulo à nossa luta.
A gente se sente — modéstia a parte — fazendo
história, estimulando homens e mulheres a
aceitarem já, numa boa, o que será “normal” e
“geral" sò daqui a umas decádas, na esperada
sociedade do futuro. (Luiz Mott)
S.O.S. Argentina
“Lampião” foi talvez o primeiro órgão da im¬
prensa, alternativa ou não, a lançar o grito de
alerta sobre a trágica situação dos homossexuais
argentinos. E como este jornal tem grande pe¬
netração na Argentina, “por el camino de las for-
miguitas", como dizem nossas irmãos do prata. Foi
imensa a repercussão das nossas matérias. Por es¬
se motivo os homossexuais argentinos resolveram
lançar um “S.O.S" ao mundo através de Lam¬
pião (anônimo, naturalmente) , na espérança de
serem ouvidos e de que se faça alguma coisa a res¬
peito. Eis o documento:
Le louar
BOITE
Shows de 3* a Domingo
Strip-tease masculino
Raul Pompóia, 102 (Galeria)
Organização Contábil
Vieira Lima Ltda.
Contabilidade em geral
Escritas avulsas
Arquitetura
Despachante
Ad. de Imóveis
LILIANE E LIMA
Estrada dos T rés Rios, 90 — 8/318
Tel.: 392-7324
GAY •
GIRLS
A volta da revista a Copacabana
MARIA LEOPOLDINA no musical de travestis
Com Theo Montenegro — Stella Stevens
Fugika — Marlsa Jones — Cláudia Celeste
e Veruska
Atriz convidada: Nèlla Paula
Participação dos bailarinos Edson Farr *
e Eduardo Allende
3? , 4? , 5 Melras e domingos às 21h30mln
Sexta e sábados ás 22 h
Teatro* Alaska — Posto 6
J
* 1
4 .
“Este é talvez o primeiro pedido de socorro
anônimo da história, que não utiliza a clássica
garrafa, mas sim o meto mais moderno do cor¬
reio. Ê que os “náufragos" são tão, tão nume¬
rosos que seria impossível enumerar um por um,
mas todos estão sob um denominador comum:
são argentinos e homossexuais.
“Nunca debaixo de quaquer tipo de governo
d vil ou militar pudemos nos locomover com liber¬
dade, mas nunca fomos tão perseguidos como
agora, nunca fomos tão vulneráveis: nos mar¬
ginalizam e encurralam a tal ponto que sequer
podemos sair de nossas casas. Somos vitimas per¬
manentes do rigor policial ( sem levar em conta
hora ou local) , ou em sua falta, da extorsão que,
dada a situação, é moeda corrente.
“Periga nosso lar, nosso trabalho, nossas
carreiras; nos envolve uma neurose permanente: o
medo.
“Que fazer? Como nos defender? Com quem
falar? Com que armas lutar? E nem todos são
bailarinos, figurinistas ou cabeleireiros, profis¬
sões que por elas mesmas determinam uma in¬
clinação sexual diferente, mas também gente que
estudou muito, se sacrificou, trabalha e trabalhou
duro para consolidar uma posição e que agora
não merece um mínimo de respeito: basta uma
simples delação para que uma vida seja arrui¬
nada. _
“Por isso, em nome de todos eles lhes pedimos
que, através de sua publicação, dê a conhecer
nossa situação e que organismos de países como
Brasil, Estados Unidos. Holanda, Canadá, Es¬
panha, Inglaterra, etc. nos prestem seu apoio
solidário para que pek) menos não nos pisoteiem,
nos respeitem como seres humanos que desejam
viver tranquilos. Nem remotamente sonhamos
com uma liberdade plena, mas sim com a mínima
indispensável de que um homem necessita para
poder subsistir.
“Por favor, é uma súplica, vocês podem e
devem nos ajudar, pois dispõem dos meios neces¬
sários. Não nos abandonem. Obrigado."
Minorias de quê?
“Frequentemente a questão da libertação da
mulher é apresentada ao lado de outra*, como a
do negro, do homossexual, do índio, etc., aobrea
classificação geral de “queatáo da* mhiorias".
Mesmo nos mdoa dito* esclarecidos da sociedade
i Intelectuais, pesquisadores, sodòlogos, an¬
tropólogos, etc.) o uso desse termo aparece
muitas vezes como tácito, legítimo, on melhor,
não tem soa legitimidade questionada, pois as
pessoas nem sequer se dão conta de que se trata
de uma denominação, em sl mesma, discrimi¬
natória.
"Vendo a questão sob o ponto de vista das
próprias “minorias", e não pelo lado dos que as¬
sim as denominam, observa-se que esses grupos
podem não ser maioria em termos estritamente
quantitativos, mas qualhatlvamcnte, cm termoa
de conteúdo, sua Importância é considerável. São
des que. ao se manifestarem, reivindicando um
espaço social onde possam aluar, exigem da
sociedade abrangente o reconhecimento de sua
legitimidade, fazendo com que esta se mostre, em
sua essènda, contraditória e repressiva.
"A denominação de “minorias” aplicada a ca¬
sa grupos é, portanto, bastante siglnlflcatlva, e
parece esconder o seguinte jogot ao enfatizar a
i -ar lavei quantitativa (são minorias apcsias, não
representam o povo brasileiro, o que interessa é
aquilo que a maioria pensa), deixa-se de lado a
questão essencial, que é o conteúdo da reivin¬
dicação desses grupos, que é capaz de fazer ver às
“maiorias" (silenciosas e manipuláveis) questões
nunca d 'anta sus d ta das. Quatõea que, por sua
natureza, ameaçam o comportamento de avestruz
típico dessa maioria _ e é esse predsamente o
perigo.
Belco’s Bar
Marias Bonitas
c Lampiões
11 horas
terça a Domingo
Visconde de Cairu, 26 C
Página 14
LAMPIÃO da Esquina
★ ★
APPAD
associação paranaense
da parada da diversidade
★
★
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
| ESQUINA \
“Mdhor c mal» Mg ar o teria maalcr cases
grupos niiaovitáfioa no acu devido lugar, feto é, à
margem, atua oootam inação. AUaal, o negro
conhece teu lugar oouio ninguém; os homoaae-
luala só aparecem à nohe e cm locait perfeita-
mmlc deUmltadoa; oa índios, graçsa a Dona, ca¬
tão longe e bem Ignorantes, como convim ao ver¬
dadeiro ftilvicoU. O cato daa mulher ca parecer ser
o mais complicado, pois além dc catarem em todo
lugar, a qualquer hora do dU c da noite, aão
multas. Estio In fU iradas entre nós, penetrando
aos ossos lares. Impregnando a cabeça dc nossas
filhas de Ideologias exóticas e pregando a revi¬
ravolta no mundo. Valha-me Deas! Sorte qnc aio
minorias'*.
Ê isso ai. "Minoria” é termo asado pda
maioria para, menosprezando-* numericamente,
ver se consegue esvaziar o comendo Ideológico de
seus questionamentos. Aliás, Lampião o usava no
hi icio. Quando percebeu ser um truque do poder,
mudou para grupos oprimidos, • que é muito
mais predso. Inclusive as mulheres nem qnaa-
tltallvnmcutc aio minorias. Se as Jantarmos aos
negros e nos homossexuais antio... Bom, este
befesshno texto loi retirado de ESCRITOS”
sobre o fcmlafamo (m9 0) e Mo por um grnpo
diamndo COSTELA DE ADÀO"i Caixa Poetai,
10.d$é _ 90.800 _ Pferto Alegre _ BS. A revista
E o 13 de Maio?
Ea 13 dc mmk> de IMS M mMi ■ W qae
aboliu a escravatura no Braeft.
O qnc mta data represem a pura a oomuai*
Estas qnmtòss foram Irvants das no dacorrar
do Alo Público convocado peio Movfmoato Negro
Untficedo, sm SP, nodfei IS.oDfeNsdaoslia
Denúnda contra o Racismo.
O ato público loi realizado no largo do Pafc-
sandú, diante da Imagem dú Mie Preta, mm a
riúüT! k repiLentmMm da APEOESP,
to comra a Carestia, Grnpo Somes, Atuação
Fsmhifeta, Grupo Qullombola, Grupo Bologun
de Ribeirão Prelo, etc.
dor a margkiallzação sodal, eooammla e pollllca
do negro brasltfro, onuseqiêuHai de discri¬
minação recftal ntllznda como meio de opressão.
O manifesto do Dta Nacional de Denúncie
contra o Racismo, lido ms voa afea pdos presen¬
te*, denunciou “a violência policial como mdo de
manter a populaçao sob rigoroso controle. Im¬
pedindo a reação à exploração".
Denunciou também a "flagrante discrimi¬
nação radal na admissão de empregos coeso
prática racista que desmascara a tão falada
democracia racial pregada pelo governo a Hm de
enganar a população negra e a opkiiào pública
muadial". “Esta diserta Mação, continua o
manifesto, é amparada por uma Justiça que até
boje não condenou nmhum racista por negar
direito ao trabalho, mas leva milhares de aegros
ás prbòcs por furtos na tentativa de sobrevfven-
da”.
Os manifestos saíram cm paseeate cm direção
ao Teatro Mualdpal com palavras de ordem,
como "Abaixo o Racfemo", "Abaixo o Subem¬
prego” e " Mais trabalhos para os aegros"!.
Em Campinas, o Movimento Negro Unifi¬
cado elaborou nm programa especial ao Centro
Cultural Recreativo de Campinas.
O ponto alto fd o debate "Reflexos da
Abolição no Negro Brasfldro ", onde ISO pessoas
discutiram sobre as «mseqttcadas da falsa li>ar-
taçáo, a marglnallzação do negro, a questão do
preso comum e a exploração da muflicr negra.
(Lenny deOUvdra, MNU, SP).
A arte dos negros
Os negros militantes do Brasil não cultuam a
data de 13 de Maio. dia da Abolição da Escra¬
vatura. que consideram uma dádiva do poder
concedida apenas para evitar a falènda do lm-
LAMPIÃO da Esquina
APPAD*
associação paranaense
da parada da diversidade
t
0 PAPA VISITA FAVELADOS
Deu nos jornais: Governo pede que favelados nfto corram atrás do Papa
peno. Preferem o 20 de novembro, morte do
Zumbi dos Palmares. Acontece que mal ou bem.
o 13 de Maio existe e nesta data as entidades
negras costumam manifestar-se. No racista eger-
manófilo estado de Santa Catarina, piaram
protestos até de Blumenau e Itajaí. Em São
Paulo, o Movimento Negro Unificado contra a
Discriminação Racial fez manifestação pública
no largo do Paissandu, que foi organizada como
um anti-13 de Maio. um protesto oontra a hi¬
pocrisia".
No Rio de Janeiro, o Instituto de Pesquisas de
Culturas Negras (IPCN), o Movimento Negro
Unificado, a Sociedade de Intercâmbio Brasil-
África (SINBA) e mais a Fundação patrocinaram
o I PAN ( Panorama da Arte Negra) entre os dias 9
e 17 de maio. Apesar da pouca divulgação nos
meias tradicionais de comunicação, a afluência
foi maciça em todas as atividades que compareci.
Vamos por. partes.
Houve uma parte musical, nos dois primeiros
e no último dia. Neste último (concerto com João
de Aqutno) não compareci. Só nos outros, que
foram ao ar livre na Cinelãndia. No primeiro,
cantrtam Aniccto do Império. Clementina de
Jesue e A Velha Guarda da Portela — todos im¬
pecáveis. No dia seguinte foi a vez, entre outros,
de Elza Soares. Led Brandão, Toninho Café.
Mas quem roubou a noite foi o saxofonista,
clarinetista, cantor e compositor Roberto Gutma
— realmente uma grande revelação que enlou¬
queceu o publico. Ainda é um pouco influenciado
demais por Paulo Moura e Johny Alí, mas o seu
talento é inegável. Ainda na parte amena, exibiu-
se o grupo de dança Olorum Baba Min e também
o Ballet de Mercedes Batista.
Na semana seguinte, foi a vez das anfofexáas
e debates no Museu de Belas Artes. Não pude
comparecer nem à do Rubem Confete sobre
Música Popular nem à de Lélia Gonzalcs sobre a
Mulher Negra — mas me disseram que foram
ótimas. Fui ver Abdias Nascimento no lançamen¬
to do seu livro Guiloa bisão, editado pda Vozes.
Seu discurso foi uma obra-prima da objetividade
política, alertando contra divisionisroos internos e
também oontra tentativas de apropriação por
partidos políticos.
Assisti ainda ao debate entre Zózimo Bulbul.
Jorge Coutinho. Procópio M ariano. Jacira' Silva.
Paulo Roberto. Zaqueu, José Medeiros e Alex
Viany sobre O papd do negro no efeou bra¬
sileiro. que transbordou ainda pelo teatro e prin¬
cipalmente pela TV. Até professor brazilianista
americano e ex-doméstica que hoje é universitária
manifestaram-se. Malhou-se muito o Sindicato
dos Artistas do Rio de Janeiro, por sempre omitir-
se quando personagens, escritos para atores
negros terminam interpretados por brancos,
como Terror e Êxtase do nosso cineasta amigo
Antônio Calmon. Igualmente criticada foi a Em-
brafilme. cujo Superintendente de Comerciali¬
zação teria afirmado a diversos produtores que
“ filme de negro não vende" . A situação quase que
destrambelhou só quando Zózimo Bulbul,
presidente da mesa, dado à insistência da platéia
em falar, insinuou que "era toda reunião da gen¬
te (leia-se: negros) sempre que o microfone vai
para platéia, vira bagunça e o nível cai”. Zózimo
é um antigo militante, embora continue elitista.
Ao ver a loucura que tinha dito. passou o mi¬
crofone ao povaréu. Nem virou bagunça nem o
nível caiu. Muito pelo contrário, a grande re¬
velação do 1 f AN foi exatamente o alto nível
político dos espectadores. (João Caries Rodri¬
gues»
Madureira surreal
Um poertuha _
valgo Muda rafes 0, ram
de hoaossexua
banheiro fumando e
_ de Ki
Fu. Pois asa 28.4.80, dois dos t_
— Lais e Pa alo foram aan
papo muito surrealista __ cks dc am lado, a
repressão do outro _ mais oa assaos isahat
GERENTE _”Oque vocês fazem ao hall do
banheiro?” L/P _ "Coavenamos e fmi
mos”. G _ “Voeis são homossexuais?” L/P
— "Somos e assumimos”. G _ “Pois
que aqui é lagar de homens e
sexuais". L/P _“Ts
só pode ser pr
Depois deem o gerente expulsou -cs e tem
barrado qualquer um aa bflhcterias O mais
engraçado c que eram os homossexuais que
mantinham o dnema funcionando... Mas Isto
não vem ao caso. Qu momos é i ber como Uca
a Igualdade de todos os ckbdáos perante a
Lei. Será que a Constituição foi rerogada?
(AUÊ/RIO _ Lutzlnho).
Na Universidade
Na noite de 23 de abril, a Universidade Fe¬
deral Fluminense promoveu um debate sobre a
questão homossexual (úc...), com a participação
da revista R adice de psicologia, do jornal Lam¬
pião. e dos grupos SOMOS/RJ e AUÊRJ, de
homossexuais organizados; a sessão decorreu no
auditório do Instituto de Ciências Humanas e
Filosóficas, em Niterói.
Apesar de. numa sala ao lado, por coincidên¬
cia em que ninguém acreditou, estar se realizando
um debate sobre o proletariado brasileiro e suas
lutas específicas, tivemos a presença de cerca de
300 estudantes e professores, em animadíssima
discussão... e com abundantíssima troca de
olhares paqueradores; não foram poucos, os
cariocas que passaram aquela noite do outro lado
da baía. Correu tudo numa muito boa. Bicha e
lésbicas saíram ganhando. Um a zero.
Dia 20 de maio. das 10 às duas da tarde,
promovido pelo Centro Acadêmico dc Sociologia
e no âmbito da Semana de Sociologia, na
PUC/RJ. outro debate Desta vez. o SOMOS/RJ
era o único convidado. Como a Reitoria recusou
ceder um auditório, o encontro foi num sala de
aula. pequena para receber mais de centena e
meia de professores c alunos (o Departamento de
Sociologia estava em greve, repudiando o novo
diretor nomeado à sua revelia). Foram quatro
horas de diálogo muito intenso e riquíssimo. E,
como na Fluminense, pintaram milhares mis,
muitas paqueras, almoço conjunto e. sobretudo,
pintou muito etcsicra ... Bichas e lésbicas saíram
ganhando. Dois a zero.
Da carta-convite do C.A.. não resisto a trans¬
crever alguns trechos significativos: (...) A ques-
tão homossexual foi considerada prioritária.
o direito de livre
> qualquer grupo i
não têm vo* ou as
Indivíduo dispoi
de seu próprio
corpo, c por encararmos o homossexualismo g__
como uma anormalidade, mas rim como uma op¬
ção ua busca do prazo-, achamos Importante a
participação do grupo Somos ua uoasa S raiana dc
Sociologia, c na construção de uma vida melhor,
benta de raprtmòcs. Afetuossmcnte, Crioy Et a.
menino bàoü!
Neste debate puquiano. além da certeza de
que a organização homossexual está trilhando o
caminho certo, ficou claro o interesse crescente do
povo universitário pela homossexualidade e sua
discussão; o papo teve um excelente nível e,
graças aos nossos orixás, foram impedidas quais¬
quer tentativas de falar socioAogucs- Mas, por que
os professores tiveram tanto medo de falar, ali?
Dolores, já batizada de La Parionárla. pintou
e bordou, se afirmando como a mulher- forte que
estava faltando ao SOMOS/RJ; beijào. dona. E,
estamos cobrando tua promessa; queremos você
no Lampião, logo. Todos os outros sombtas e
sometes. na mesa e no salão, se con portaram
maravilhosamente, deixando uma imagem tão
boa. que estão chovendo inscrições de novos
membros.
Para junho ou julho, está pintando um oonvite
da Medicina da UFRJ, lá no Fundão. Novo
debate. Claro que as bichas organizadas aceitarão
e não vão faltar. Bichas e lésbicas sairão ganhan¬
do. Três a zero.
Finalmente, a universidade se vê obrigada a
abrir suas portas aos homossexuais. Não se trata
de uma concessão, de um terreno cedido, não. Ao
contrário, é um espaço conquistado por nós. com
muita luta. muita briga, algumas lágrimas... e
muito suor.
Dedsivamente. definitivamente, a viadagem e
a sapataria passam ao ataque também na univer¬
sidade. nesta cidade que leva o nome do mais
fresco e d es munheca do dos santos católicos. Ou,
como um certo hetero gritava na PUC. infla¬
madíssimo: o cotio anal destrói o capital!? ( J C ).
,T I
1 »
Página 15
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
Bixórdicr
Walmir Ayala? Viva!
Parece que a Academia Brasi¬
leira de Letras abandona, pouco a
pouco, a sua postura conservadora:
depois da admissão de mulheres,
aceitou agora a inscrição do poeta.
Walmir Ayala  vaga de José;
Américo de Almeida. Em que pese o
forte conteúdo politico-liter&rio dei
outras candidaturas — como a dei
José Samey — à mesma vaga, LAM-
PIÀO fica com Walmir Ayala, pelo
significado de sua eventual entrada
na ABL: poeta de primeira àgua é
autor, dentre outros títulos, de
“Nosso Filho Vai Ser Mãe”, “En¬
quanto a Pena Não Chega”, “A
Salamanca do Jarau”, “A Beira do
Corpo”, além de dois apetitosissimos
Uma das coisas mais adoráveis
do I EGHO foi o Correio Elegante
que acontecia toda vez que havia
mais de 20 pessoas reunidas. Os
pombinhos Reinaldo e Maestro
quase desmaiaram com o impossivel
movimento de bilhetinhos de amor
com telefones, endereços, galanteios
e cantadas de todos os géneros.
Havia troca-troca assim: “Quer ir
para casa? Tenho até KY.” Respos¬
ta: “Vocé tem KY e eu tenho o al¬
fabeto inteiro à sua espera. Beijos
ansiosos.” Ou então: “Tenho um
telefone CVV, Centro de Valorização
de Viado. Valorize-se. Toque pra
lá.” Resposta: “Vocé tem CVV e eu
um SL, SEXO-LOUCO, que além de
safado é anarquista.” Havia bi¬
lhetinhos mais audaciosos: "Topas
escrever um poema nas entranhas do
meu ser?” Ou modestamente po¬
litizados: "Vocé è um doce. Viva a
subversão.” Ou pudorosamente
melodramáticos: “Olho para você e
fico com as calcinhas molhadas.” Ou
francamente descarados: “Quero
sofrer ê com a sensação infinita de
ser uma garrafa de champanhe fran¬
cesa (safra 52) sendo arrolhada.”
• A sexualidade esti na ordem do dia. Ela
saiu is ruas aomo se pode ver na matéria deste
número sobre as ptchaçòes de caráter homos¬
sexual nos muros de Salvador. Também em
Brasília as paredes das passagens subter¬
râneas dos eixos monumentais estio tomadas
de dizeres em spray vermelho falando de li¬
beração sexual e Retch. Foi em Porto Alegre,
porém, que pintou a coisa mais singela e con¬
cisa que se pode desejar sobre o assunto. Num
muro de uma demoliçio, na Av. Oswaldo
Aranha, alguém muito inspirado escreveu:
"Joio ama Pedro. Por que nio?"
Atenção, bichas e sapatões:
vale a pena ir dar uma olhada na
peça “Queridos Monstrtnhos”,
que está estrelando neste co¬
meço de junho no Teatro Casa
Grande, aqui no Rio. O autor è
Paulo César Coutinho; no elen¬
co tem uma amiga nossa. Már¬
cia Vasconcelos; e os figurinos
são do lampiõnico Mário Valle.
volumes de “Diário Intimo”. Se
houvesse, na literatura contem¬
porânea, algum autor a quem o
caudaloso (literariamente) Ayala
pudesse ser comparado, seria cer¬
tamente Roger Peyrefitte, o francês
que escreveu “As Amizades Par¬
ticulares”, franco elogio ao amor
uranista. Seria a glória a presença de
Walmir Ayala na Casa de Machado
de Assis. LAMPIÃO já colocou a
hermosa Rafaela Mambaba em
franca cabala eleitoral: WALMIR
NA ACADEMIA! MARCHARE¬
MOS SOBRE A ABL, SE PRECISO
FOR! — estes, dois dos slogans
bolados pela Mambaba em prol do
nosso poetinha.
• De 393 candidatca, o Departamento de
Polida sdedonou nove bichas e sete sapatões,
como recrutas da Academia de Polida, para
integrarem um corpo especial destinado a
atuar no mundo entendido, com a finalidade
de defenderem os homossexuais de violènáas,
chantagens e outras coisas do tipo.
O projeto tem um coordenador espe¬
cífico, que cuida do recrutamento. Na
Academia, as boas-vindas foram dadas por
uma mulher major que, em seu nome e em
nome do Chefe da Policia, afirmou que o
Departamepto se sentia honrado com tal
acontecimento, esperando ser seguido e
imitado por todos os departamentos policiais
dopais.,.
Acordem: tudo isto aconteceu em Sio
Francisco, nos Estados Unidos da América.
Que é que vocês estavam pensando?
•Arqueologia gay _ Nosaa colaboradora
Mary Inana vinha andando pda Cfarfâadfc,
quando ouvia grítoa a atoa «tu fteutc do
dscaa Odeou. Aproximou-se pautando qu«
«ra Nevfle de Almeida redamaado da renda
da Sete Gatinhas, mas eram duas bonecas en¬
galfinhadas. O mak engraçado é que a briga
uAo era por causa da acabam bomeas, mas
pdo éltlmo exemplar de mm Hvrtnho de capa
prateada na barraqufaaha da ivraria Ler.
Nome do livro? Los primeiros movimentos en
favor de los derechos homosexualcs (1864-
1935), de John LauHtxca e Davfd Tborst,
volume 78 da colação Cuadsmos ínfimos da
Édftova Tasqueis, ds Barcelona. Mary, que Já
tinha IMk garante que é uma obra-prima e da
lácÜ leitura, anbora ufto muito barato (Crt
308,00).
• Atenção, pessoal: dia 16 de junho, a par¬
tir de 20h30m, na Livraria Muro, o lançamen¬
to do livro "O Cego e a Dançarina", de Joio
Gilberto Noll. O autor, pra quem nio se lem¬
bra. publicou no LAMP1ÂO/23 um canto lin¬
díssimo: "Domingo sem Néctar". Assim, em¬
bora o livro nio seja da Esquina Editora, a
gente convida pro lançamento de Joio Gilber¬
to: ele é dos nossos.
* Ti Boa, Santa? — Ga beba, em recente en¬
trevista, dedarou-se precursor no Brasil dos
movimentos gay, negro e da llberaçio da
maconha. Que é iaao, companheiro? Quando
você ainda era careta, uòs aqui fk «atávamos
pn lá de Bagdá... Isso é que dá dcsbuadhr
aos quarenta. Mas antes tarde do que nunca.
Comentário melífluo de Rafaela Mambaba após ler um relatório com¬
pleto sobre a participação brasileira no congresso das culturas negras no
Panamá: “Hum! Tem muita nhâ-nhã branca falando em nome do movimen¬
to negro... Es crioulas, quando è que vâose manifestar?”
Página 16
l** Brandho: agora, eia é também uma intérprete firme e apaixonada
Emílio e Leci:
Essas Tais Criaturas...
Quem curte o que há de mais puro e verda¬
deiro no nossa MPB, nflo deve ter perdido, neste
més de maio, dois grandes espetáculos: O de
EmBio Santiago, na Sala Funarte, e o de Leci
Brandão no Teatro Opinião.
Emilio Santiago, carioca de Botafogo, sa-
gitariano e formado em Direito, é sem dúvida
nenhuma um dos melhores cantores surgidos nos
últimos dois anos, senão o único. Ele se propõe a
apenas cantar sem dar uma de instrumentista ou
de compositor, o que é muito raro atualmente na
nossa música. Apesar de não sair bradando pelos
quatro cantos da cidade sua homossexualidade,
de apresenta-se como sendo uma pessoa bastante
assumida, inclusive usando e abusando de sua
sensualidade em suas apresentações. É de dar
água na boca*
No Show, Caato Crescente, que teve uma cur¬
ta temporada na Sala Funarte, Emilio pode mos¬
trar seu amadurecimento e sua segurança, além
do já conhecido talento; que vem num crescente
desde o tempo em que participava de programas
de calouros e que cantava em bailes como crooner
da arquestra do Maestro Formiga e do Conjunto
de Ed Lincoln.
Dividido em três partes — Noite, Madrugada
e Dia — o espetáculo, que teve a direção de Ar-
thui Laranjeira e Sérgio Rocha, mostrou a har¬
monia natural do cotidiano, como se fossem trés
histórias acontecidas em trés tempos distintos.
Histórias que, segundo Arthur, foram vividas e
acumuladas durante muitas noites, muitas
madrugadas e muitos dias. Coisas comuns, que
estão soltas no ar e que só marcam a todos
aqueles que tenham o coração aberto para as '
barras do amor.
Emilio Santiago mostra seu lado romântico, o
lado que normalmente não é divulgado e nem
comercializado. Sem ser sentimentalóide e com
um roteiro bem selecionado de autores, .e com¬
positores transando junto com Arthur, onde
podemos destacar : A Noite de Ivan Lins e Victor
Martins; Dama da Noite de João Nogueira e
Maurício Tapajós ; Fim de Noite de Chico Fritosa;
Mentiras de João Donato e L. Enio; Quase Sem¬
pre de Edú Lobo e Cacaso; Noticia de Jornal de
Luiz Reis e H. Barbosa; Nascente de Flávio Ven-
turíni e Murilo Antunes, Emilio mostra toda sua
garra.
O sucesso do Show na Sala Funarte foi tão
grande que a turma que organiza a série Noturno
(que acontece de quarta à sábado, ás 21h, na rua
Araújo Porto Alegre, 80 — Centro), resolveu
fazer uma nova temporada que irá de 7 de junho.
Se vocé não conseguir ver o show, o que vai ser
uma pena, não deixe de escutar o último LP "O
Canto Oeacente de Emílio Santiago", onde além
de incluir autores como Cartola, Chico Buarque e
Aldir Blanc, ele mostra o que é ser realmente um
cantor, e de forma bem natural.
Como não podia deixar de ser, o show de Leci
Brandão da Silva, no Teatro Opinião, mais uma
\ez fez o maior sucesso. Muito mais descontraída
e solta, e transando o espaço e o corpo harmo-
nicamente, Leci mostra sua nova fase.
Desde os tempos dos Festivais Ginasianos e do
começo de sua participação na ala dos compo¬
sitores da Mangueira, nos idos de 70, Leci sempre
deixou patente seu talento, que a cada dia que
passa aumenta consideravelmente, ampliando as¬
sim seu público, ainda pequeno. Mas Leci não se
importa com números e insiste na qualidade .
Emilio: afinal, um cantor
Com seu show ela lança o terceiro LP “Ema
Tal Qriatara", que marca uma nova fase no seu
trabalho e onde ela acrescenta ao seu repertório
compositores e autores como: Zé Ramalho, Ivan
Lins e Angela RO RO (segundo ela, a louca
lúcida). Gomo nos seus dois trabalhos anterior eí,
"Coisas do Meu Ptmoal" e "Questio de Goato",
a abordagem homossexual se faz presente em seu
novo LP. Leci não tem medo de se mostrar como
lésbica e faz questão de afirmar que encara seu
trabalho como uma militância, através do qual
procura transmitir uma força, uma segurança,
para as pessoas, que como ela, são oprimidas e
marginalizadas por essa sociedade hipócrita, que
não permitem que os indivíduos tenham uma op¬
ção de vida e cultivem o seu jdto de ser.
O show do Teatro Opinião, que também teve
uma temporada curtíssima, foi dirigido pelo in¬
crível Otonid Serra. A arena do Teatro Transfor¬
mou-se numa verdadeira "Vereda Tropical", com
muitas folhas secas, frutas e uma pinga dd idosa,
daquelas de se guardar em adega, e que foi dis¬
tribuída entre o pessoal presente. Deu para fazer
a cabeça. Na platéia se encontrava Emílio San¬
tiago, que curte muito o trabalho de Led, por
sinal fazia-se muito bem acompanhado por rinco
gostosos garotões, um dos quais merecia parti¬
cular atenção do cantor.
Do roteiro constavam músicas como: Margot
de Edil Pacheco e Paulo Dinis, que conta a his¬
tória de um travesti; Chantagem de Led dirigida
aos mau caráter que se aproveitam de situações
onde assumir a homossexualidade é algo danoso,
para assumir o papel do opressor; Me Acalmo
Dmnaajlo de Angela RO RO e finalizando Essa
Tal Qrfatura de Leci, que voca a busca do prazer,
seja como for e qual for, pelos seres humanos —
Corra no campo /Leva um tombo/ Rala o joelho/
Mata esta sede/Durma na rede/sonha com a
lua/Grita na Praça/Picha as paredes/Ama na
maior liberdade... abra, /escancara esse pei¬
to
Recentemente, numa homenagem feita pela
produção do Show do Blffto Cabaré. Led mais
uma vez afirmou que seu trabalho tem sido feito
com muito sacrifício, eque as barras e as batalhas
ganhas foram estimuladas não só pda confiança
em seu trabalho, que considera consequente, mas
principalmcnte por acreditar nas pessoas iguais a
da e para as quais dedica todo seu esforço, os
homossexuais, essas tais criatuasí (António
Carlos Moreira)
LAMPIÃO da Esquina
APPAD
associação paranaense
da parada da diversidade
★
★
Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
iTENDÊNCIASl
Bisso, toujours Bisso
Neste momento em que todos os fazedores de
humor se condicionam aos padrões de baixo as¬
tral da televisão, ou apelam para os palavrões,
cujo baixo astral é idêntico, surge em oena mais
uma ver Patricio Bisso. Talvez seja um benefício
para nos. que ainda sabemos diferenciar e exigir
qualidade, que Patricio Bisso não tenha atingido
aquela popularidade massificada e massificante
dos ídolos da tevê. Porque de é um comediante
muito especial, e por isso unico. Sua 'verve*’ se
apoia num patético que dispõe como meio básico
de exprcsào. da mascara branca e impessoal dos
dássicos da mímica, como Barrault. Maroeau. ou
um tristonho comediante do dnema mudo. cujo
nome não me ocorre agora Porem de não fica só
nisso: outro dos seus elementos de cena e a nos¬
talgia das antigas divas cinematográficas, desde a
ingênua Mary Pickford até as glamurosas dos
anos 50.
Patrício Bisso nunca fez travesti no sentido
ornium — e ator transformista, o que ainda é
pouco para explicar a sua incrivd versatilidade e
seu talento incomum. Seu humor é criativo e lim¬
po. inteligente e erudito, coisa rara nestes dias de
apelação imediatistas... Sozinho em cena. a sua
presença estática sob um refletor, com um dos
trajes propositada mente ‘‘kitsch" que ele mesmo
constrói (construir e bem o termo para definir o
ato de criar tão estranhas vestimentas com tão es¬
tranhos acessórios», já é sufidente para que de
segure o publico que permanece magnetizado c à
sua disposição.
Este show "Caprichos do Coração’* (Teatro
Brigadeiro. São Paulo, somente às quintas e sex¬
tas à meia-noite) e tão perfeito que fica difícil des¬
tacar o que se considere mdhor. Cabe porém uma
referência especial a sua magnifica Gioconda. a
Mona Lisa do enigmático sorriso, pela excep¬
cional criatividade plástica.
Patricio Bisso merece uma vinda a São Paulo,
dos que morem em outras cidades Para os daqui.
Patricio e programa obrigatório. Mais que isso: é
vacina contra a burrice e a vulgaridade vigentes,
t Darcy Penteado*.
Quem tortura quem?
*‘E»te ê um texto sobre o escravo, contado do
lado do chicote*'. £ nesta linha de idéias que te
desenvolve a historia de tortura dores que apelam
a uma autoridade mais graduada __ uma mulher
paradoxalmenle chamada Piedade e colocada na
peça tomo homossexual _ para resolver o caso
da morte de um torturado, o operário btsuflador
de greves na FABRICA DE CHOCOLATE *
Interrompendo sua partida de tênis, da planeja
um golpe duplo: antes do prhlondro se "suici¬
dar*, ek primeiro mataria seu carcereiros o
policial mais temeroso de todos, portanto o menos
preparado para suas I unções.
Os destaques vão para Ruth Escobar e Joae
Dumoni. Também multo boa atuação de Mllanl
e João Jose Pompeu. Mario Prata _ o autor _
lem o bom-senso de não cair num sentimentalis¬
mo piegas; ao contrario, coloca o tortura dor como
uma espede de profissional competente, com goa-
lo e vida comuns, falando o tempo lodo de seu
trabalho, como se fosse tão gral Iflcante quanto os
demais.
No entanto, ha soluções bastante precárias.
Por exemplo: a morte do Jo vem polldal des¬
preparado. Quem qubesse se descartar rapi¬
damente de um colega assustado não optaria por
aqudea mclodos Indiretos, perigosos e de êxito
duvidoso.
Também papel knsolHo _ Igual ao do tor-
turador louco _ é o do dono da fábrica, patrão
que dedura o empregado, o morto. Ek aó entra
em cena para ouvir uxn discurso Ideológico, onde
a burguesia estaria em ligação direta com o
aparelho polldal: o sustentaria com seu dlnhdro,
mas a polida faria para de o serviço dos llxdros,
arrecadando os marginais que sujassem tuas em¬
presas. A própria referenda á mulher da tor-
furadora, corno tendo pertencente á alia sode-
dade. c mah um lance que confirmaria a tese de
que a burgacala, em rodos os aivds, Indaslve
através da cama, conviveria (e estaria compro¬
missada» Intima e »l cridos amente com o sistema
represa or e torturante.
Enquanto a falha fka sò ao nível da gratui¬
dade dos personagens, tudo bem. Mas no caso de
Piedade, o problema torna-se mais grave por con¬
ter forte dose de estereótipo: na concepção do
autor, como uma mulher feminina nâo se en¬
caixaria no papel de torturadora implacável, o
homossexualismo justifica o autoritarismo dela,
bem como sua forma de agir. Portanto, além de
ser detalhe prescindível, ainda é preconceituoso,
ao tentar "explicar" o comportamento de Piedade
por ser ela urr "tremendo sapatão**, como co¬
mentam os colegas torturadores na sua ausência.
As mulheres autoritárias nâo precisam neces¬
sariamente ser homossexuais do tipo machas. Por
apresentar capacidade de comando., de plane¬
jamento. inteligência, decisão, energia, raciocínio
lógico, sangue-frio na execução das taiefas ou
seja, qualidades ditas **masculinas** , teve de ser
masculinizada para poder ser igual ou mesmo
superior aos seus colegas .
Numa sociedade patriarcal é o homem quem
manda, ordena, brilha, executa, decide, delibera.
Ê nisso 'que dá a reprodução de papéis: uma
mulher bem sucedida na vida tem de ser "como
um homem**; mas, paradoxal mente, já que isso
nâo pode ser conseguido dentro da "normáli-
dade" (onde ficam a sensibilidade e a ternura
femininas?) foi forçoso igualá-la sexulmente a
seus parceiros .£ mais seguro acreditar em pa¬
drões estabelecidos do que aceitar que ela pode
odiar e matar, como qualquer outro ser humano.
A frase, válida para o torturador, também serve
para a mulher : ambos são resultados e não pontos
de partidas.
Enquanto a vida dos demais personagens é
normalíssima e identificável com a maioria das
pessoas da classe média, o que o público fixa com
relação à torturadora é que ela é ‘lésbica**.
Piedade é á única a ter duas características in-
comuns: *\t homossexual" (minoria) e ‘biacha’*
(minoria da minoria). Por ser ‘^ssirn** é que ela
age "assim**. Que alivio: estio salvas as mulheres
de família.
Se nâo fosse por estes furos, ‘TÁBR1CA DE
CHOCOLATE** seria excelente. Mas “urna
análise das vísceras do torturador" - como a peça
é definida - deveria penetrar fundo em suas en¬
tranhas, não através de julgamentos precon¬
ceituosos, mas de corajosa percepção da própria
realidade, que nâo precisa conter nada de par¬
ticular nem de estranha, quando se trata de
mulher, para parecer verdadeira. (Leila Miccolis)
Patrício Bisso
Teatro europeu no Brasil
T razido pelo SNT. esta no Brasil o Teatro Ex¬
perimental de Cascalf. sem dúvida, a companhia
vortuguesa internadonalmente mais conhecida
Posteriormente, virão A Barraca, também por-
uguersa, e o CEDT4E (Companhia Francesa
jriada e dirigida pelo brasileiro Augusto Boal»
Lemos que louvar o trabalho de nosso amigo
Beto. do SNT. a cuja ousadia corajosa se deve
muito desta reali/üçâo. sabemos.
O Teatro Experimental de C ascais. TEC. é o
gijipo experimental mais badalado do teatro
luSitano. com constantes excursões pela Europa.
A|hca t Asia Agora. de< estão no Brasil, donde
seguirão para a Venezuda. primeiro, e para a
Polónia, depois. Após uma exilosa mas aciden¬
tada temporada caruica. acidentada devido à es¬
colha do Teatro Glauce R<»cha. de dimensões c
condições impróprias, o TEC estara em São Paulo
1 Gil Vicente» e Brasília (Teatrodo Parque).
Dirigido pelo divino Carlos Avilez. seu fun¬
dador. o TEC trouxe ao Brasil sds dos mais im¬
portantes espetáulos dos seus mais de 15 anos de
vida: Auto da Indla e Auto da Barca do Inferno,
de Gil Vicente; D. Qulxote, de Cervantes, em
adaptação de Yves Jamiaque (Prêmio Nacional de
Encenaçào/1%8, Portugal Oscar da Imprensa
para a mdhor encenação/ 1%8. Portugal;
Prêmio Internacional de Barcelona para a mdhor
realização plástica/ 1968. Espanha». Oração e
Dois Verdagot. de Arrabal; Fucntenefuna de
Lope de Vega; Ivone, Princesa de Borgonha. de
Gombrowicz t Prémio para o mdho espetáculo do
ano/ 1972. Portugal; Prêmio de Crítica pela
mdhor encenação do ano/ 1972, Portugal;
Prêmio de Encenação da Secretaria de Estado/
1972. Portugal); e A Maluqulnha de Arroios, de
André Brun (Prêmio Nacional de Encenação/
1967. Portugal; Oscar da Imprensa para o mdhor
encenador/ 1967, Portugal).
São espetáculos belíssimos, estes, que vi em
Portugal, revi em Angola e estou re-revendo no
Brasil. Gente finíssima, muita charme e bom gas¬
to. um visual chiquemmo. excelente escola,
bdissima expressão vocal-corporal.
Não me batam, se eu disser que é unia lição de
I cairo. de um certo tipo de Teatro, assistir/ par
tinpar a uma exibição do TEC. È mesmo, sim
senhor.
No denco, alguns dos nomes mais respei¬
tados. respeitáveis e queridos da cena lusitana,
ooino Antônio Marques. Cecília Guimarães,
Isabel de Castro (para mim. a melhor atriz do
ementa português). João Vasa». Maria Alber¬
garia, Zita Duarte (a favorita das marias-bonitas
lusíadas). Rogério Paulo (o melhor ator da ‘‘santa
lerrinha “? ». Ruy de Matos. Ivone Silva (a pri¬
meira-dama da Revista Alfacinha), Dona Fer¬
nanda Coimbra (quase oitenta anos de sedução e
i alento), c essa coisa fofíssima que e o lindíssimo
Nuno Emanuel!!!
Me parece que uma das descobertas mais for¬
tes desta Companhia, é a de amseguir transar es¬
petáculos de agrado geral. Todos gastam; intelec¬
tuais (sic. sic. SÍC...I. gente de teatro, classe média
e. sobretudo, bichas e sapatões, que ali encon¬
tram coisas lindas de morrer, com potenciais
paqueras mis. Ê só ter coragem, tentar, insistir, e
garanto que ninguém vai se dar mal. (loào Car¬
neiro)
Marco Aafôak) Chagas Gmkmaiêm
( Psleáiogo — CRP 05/2550)
Coasoétòrioi Praça Sa«i P«*a, 45/15*2,
TI Jaca. TsMoasai 2*44714 - Marcar hora
das 14 àa 17 horas.
Quando o certo é o avesso
A dublagem — ou aalcagem, como é chamada
pdos adeptos desta suposta arte — alastrou-se
como uma praga entre os travestis "artistas"
nivelando-os a todos — talentosos ou não —
numa mesma faixa, a da falta de imaginação.
São poucos os que conseguem transcender os
limites da micagem. apresentando nos palcos al¬
guma coisa de realmente inventiva (é o caso. por
exemplo, da Andréia Gasparelli, a ‘Gal Costa":
este sim, um transformista que. quando começar
a cantar, terá condições de se transformar na
Rogéria dos anos 80).
Por causa dessa característica — ura show de
dublagens — é que não se esperava muito do novo
espetáculo do Bifào Cabaré, que Adão Acosta,
produtor da casa e lampiõnioo. intitulou de Noite
do Avesso. E verdade que. no show anterior, um
detalhe jà havia sido notado — a ausência de es-
trelismo do elenco: pela primeira vez., sentia-se
que um grupo de travestis fazia um ‘‘trabalho de
LAMPIÃO da Esquina
• u(i ÔÀI^M4 1
áâ • • I # • • * ó s V I I ¥ I ^ r
equipe** — um ajudando o outro, o que já era
uma novidade. £ verdade também que. no show
anterior do Bifào Cabaré, os travestis não apenas
dublavam cantoras, como procuravam parecer o
mais possivd cora elas. Além da própria Andréia
(que é Gal Costa; a verdadeira Gal é uma imi¬
tação). Adriano (Maria Alctna), Rodà (Zezé
Mota). Ana Karina Berg (Lecy Brandão) eCynt ia
Levy (Shirley Bassey) eram imitações perfeitas.
Na Noke do Avesso eles continuam a dublar
suas artistas preferidas na prímera parte, que
conta, ainda, com a participação de Laura de
Vison e seus seios impossíveis, e de Mabel Luna.
uma argentina que dubla Dalila. Mas é na segun¬
da parte que, como diz o apresentador Fernando
Moreno, "tudo se transforma**, e os artistas do
Bifào Cabaré parecem citar Brecht ("o que è certo
não é certo; as coisas não ficam como estão").
Eles vêm ‘‘pelo avesso”, ou seja. mostrando o
outro lado de sua ambiguidade. E então. Mabel
»r*o-
Luna se transforma num malandro portenho es¬
tonteante, a cantar o "tango de mi vida"; Laura
de Vison consegue esconder os fartos seios para se
transformar num palhaço angustiado; Cynthia
Levy exacerba a dengosa frescura do baiano Gil¬
berto Gil. cantando Rcalc* Rodà aparece de
Emílio Santiago; Aija Karina Berg volta às suas
origens e apresenta um genial c gingatissimo
sambista de partido alto; Adriano faz as bichit&s
miarem de prazer dublando um Malcom Roberts
tão perfeito que tem até o detalhe da volumosa c
apetitosa mala posta de lado; e. no grande final
Andreia Gasparelli prova definitivamente que o
certo é o avesso; entra vestida de Shirley Bassey e
dublando Thls Is m> Uíe; vai tirando maquila-
gem. adereços, roupas de mulher, fica nu. e então
se transforma em Paul Anka dublando My Way.
No dia em que eu vi o show tinha até bofe
chorando na platéia a essa altura: é uma
coisa emocionante (Agulnaldo Silva)
DESTERRO
Artesanato Catarinense — peças em cerâmica,
madeira, plantas desidratadas, tapetes, gaiolas,
peças folclóricas. Rua do Catete, 228, Loja 305,
Rio.
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T detono 265-4389
Página 17
.v,'c»s*í
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APPAD ★ Prof. Dr. Luiz Mott
associação paranaense
v da parada da diversidade
GRUPODIGNIDADE
CARTAS I
NA MESA |
Destroca-troca
Caro Redator: O motivo pelo qual venho es¬
crever -lhe é o de prestar esclarecimento e retificar
o que foi publicado na seção Troca -Troca do n?
23. Onde alguém mais exaltado usou e abusou de
meu nome e caixa postal; dizendo que senhor de
40 anos desejaria conhecer jovens bem dotados
com fins amorosos e turístico. Isso porque, \T
tenho 1 8 c não 42 anos . 2? , vou à Europa mas nlo
consta dos meus planos levar "alguém na baga¬
gem, nas costas e muito menos às minhas custas.
E como há males que vêm pro bem, aos menos
avisados que por acaso vierem a escrever sò me
resta guardar os selos c começar a colecionar fotos
de garotos bem dotados. Ficaria muito grato se
esta carta fosse publicada. Sem mais, meu cordial
muito obrigado.
Robe no — Sào Paulo
R — Você é um homem civilizado, Roberto,
que coisa rara! Coleciona selas! Se soubesse o que
ai coleciono, certamente cairia pura trás. Nio te
digo por ser ImpuMkávei. Mus a vida é assim,
nio é mesmo? Cada im coleciona o que pode, o
que quer, o que lhe dá prazer. A malandragem
que flaeram cora você no Troe a -Troca deve ter
sido brincadeira de amigo sea. A gente nfto tem
como se preservar dessas coisas. Em todo o caso,
obrigado pela maneira (mais uma vez) dvflizada
de sua reação. Que pelo menos possa fazer um
belo álbum de seios e de garotôes ‘bem dotados**.
Todos Sexuais
Caros Lampiônicos. Acompanho LampiAo
desde sua tenra infância e tenho o maior carinho
pelo jornal e pelo pessoal que trabalha nde.
Além de estar do lado da causa que defendem (a
defesa de todos os oprimidos e marginalizados
pelos Sistemas), me entusiasma a linguagem
apaixonada de vocês e a briga constante pelo
direito ao prazer amplo e integral que todo o ser
humano tem, constantemente mascarado, nlo
apenas pela direita, como é óbvio e sua função,
como também pela esquerda (sò brasileira?).
Acho especialmente importante essa luta na
medida em que, no Brasil, tudo está por ser feito
e acredito que possamos encontrar um moddode
sociedade, tenha que nome tiver, em que os
preconceitos de toda espécie possam ser banidos,
sem que isso implique em traição À causa do
^•ar^ amam. «a ara mmm rara mmm
Memória guei
I
De alguns anos para cà, a
t Imprensa brasileira tem dado
f um destaque a Questão Homos¬
sexual. Noticias, ensaios, en¬
trevistas, matérias e contos,
tem sido publicados em jornais
e revistas de norte a sul do país.
I Para que todo esse material não
4 se perca no tempo e no espaço,
Ç o Jornal Lampiio resolveu oc-
r ganizar uma Memória de tudo
‘ que tenha sido ou venha ser
* publicado sobre homosse-
£ xualismo. Para isto, pedimos a
I colaboração dos leitores, que
f enviem-nos o original ou xerox
| desse material.
f * * * * *
Lampião da Esquina: Caixa
Postal 41 .031 , Rio de Janeiro —
RJ — CEP 20.400
******
Página 18
proletariado. Dito isso, vamos ao que interessa:
umas das minhas preocupações é que Lampião
venha a se tornar um Pasquim da vida, de triste
memória. Olha que eu também acompanhei e
saudei com entusiasmo o nascimento do Pasquim
e vejo o jornalzinho agora tomar posições imbecis
frente a problemas sérios (vide lesbianismo, etc.).
Nada mais irritante do que o liberalismo de es¬
querda: não fode nem sai de cima. Isso porque
venho notando, aqui e ali, certos sectarismos que
não sei onde vão levar. E eu não discordo da
posição de João Carneiro em relação à inserção
dos homossexuais na luta mais ampla. Acho mes¬
mo que a tendência agora é a manipulação e os
homo têm que tomar o maior cuidado (Obs. :
também não achei machismo em sua matéria...).
Só acho também que o caráter manipulatório, a
despeito da especificidade em relação ás "mi¬
norias", é geral na politicagem brasileira. Por¬
tanto, são dois engodos: um que visa es pedal
mente a aliciar um segmento maiiinalizado e o
outro que acena com uma sociedade justa,
igualitária, etc... etc... — desmascarados, am¬
bos, pela prática e por toda a história dos mo¬
vimentos de esquerda, no Brasil (só?) discri¬
cionários, autoritários e preconceituosos... Outra
coisa: Peter Fry fez uma matéria no último Lam¬
pião (Novocabulário Guei) e lá pelas tantas de
define 'bissexual**: algo que não existe; quem se
diz bissexual é apenas uma bicha não assumida"
etc. Aproveitando, vou dtar também o artigo de
James Lindsay (Heterossexualidade : perversão ou
doença?) Feral. Peter e James: eu acho que todos
têm direito de usar sua sexualidade da forma que
lhe dê mais prazer (oh coisa batida, meu Deus!).
Eu concordo mesmo em que a organização fa¬
miliar, da forma como está estabelecida, foi e é
determinada por relações de poder, como toda a
organização social de Leste a Oeste. Até ai tudo
bem. Agora, me parece é que negar que o prazer
possa ser encontrado com parceiros tanto fe¬
mininos quanto masculinos; é sectarizar e usar o
mesmo discurso autoritário vigente: só é pleno o
sexo feito com parceiros do mesmo sexo! James
me vem com o mesmo discurso que a sociedade
hetero usa pra discriminar o homo: o heteros-
sexualismo é uma "perversão**, etc... Parece que
. já ouvimos isso cm algum lugar... De rasto,
apesar de todo o entusiasmo com que foi sau¬
dado, não se atentou muito às sábias palavras
daquele travesti do 1? EBHO: "nós somos todos
sexuais!*'. Dá para sacar? Sexuais, ampla, geral
e irrestritamente!
Beijocas.
Vera Maria de Queiroz — Rio
R — Olha Vera Maria, o nosso maior cuidado
tem sido sempre não cair nas afirmações dog¬
máticas nem noa fanatismos, sejam sexuais ou
políticos . Estamos sempre em estado de auto¬
crítica dentro do jornal e achamos, como você,
que muitos projetos que foram saudados em seu
Inicio como libertários estào boje a serviço da
opressão das "minorias". Acreditamos que não
vamos cair nessa esparrela: o Lampião continua
sendo feito por pessoas que estão atentas para as
armadilhas colocadas ao meio do caminho, à
direita e à esquerda. Nio serviremos de bucha de
canhão e massa de manobra de nenhum partido
ou grupo político. Somos, como diz um lam-
plônlco, da "divergência socialista” e estamos
aqui para subverter as regras do jogo tanto das
que estio no poder como dos que aspiram a de.
Parece que você nio sacou bem, mas o artigo de
Jámes Lindsay é apenas uma tremenda gozação, o
ponto de vista irônico de uma bkha inteligentís¬
sima do mundo hetero. O glossário do Peter Fry,
é um dos momentos mais brilhantes do Lampião
n.° 24; de também está gozando tudo e todos, in¬
clusive as bkhas 'Hérlas” do 1? EBHO. Quanto
ao prazer de cada um, de deve ser livre, geral e
irrestrito. Beijos.
Encontre um amigo. Visite
THERMAS
DANNY
SAUNA E
MASSAGEM
Rua Jaguarlbe, n? 484
Fone66-7101
Sio Paulo
Terceiro Ato
Caros Amigos. Por meio desta comunicamos a
formação de mais um grupo Homo, situado cm
Bdo Horizonte— M.G. Após um longo período de
opressão, de cativeiro — neo-fascista — a so¬
ciedade brasileira está vivendo o momento de
"redemocratização", não vamos discutir o sig¬
nificado ou realidade desse fato; vamos sim
aproveitar o momento, o espaço conquistado,
para contestar a ideologia vigente, independente
de suas origens e bases sobre as quais se assen¬
tam. O sistema é anti-humano, antinatural e
queremos contribuir para a mudança. Reivin¬
dicamos o direito dr critica sobre toda a estrutura
sodal vigente, seja sobre a problemática eco¬
nômica relacionada ás formas de produção — ex¬
ploradores x explorados — , seja ao nosso con¬
dicionamento comportamental . Nos organizamos
para lutar contra todo o tipo de segregação, em
particular pelo nosso direito de **er”, nós que
somos chamados de homossexuais, "doentes**,
‘bichas”, ‘Sapatões", etc., vitimas das ditaduras
da direita ou da esquerda. Nio nos colocamos
contra as "idooionas progrtssitas**, nosso mo¬
vimento faz parte delas, mas contestamos a moral
burguesa das esquerdas, assunto que discuti¬
remos posteriormente. Nosso grupo é o TER¬
CEIRO ATO. Está relacionado ao ato do ques¬
tionamento, enquanto o primeiro ato está re¬
lacionado ao ato instintivo e o segundo ao ato
condicionado. Somos o Terceiro Aio e é o ques¬
tionamento dos valores que nos levou a apoiar os
movimentos r ei vindicai órk» dos direitos hu¬
manos das mulheres, negros, pessoas com
problemas fisicos, Índios, a massa de traba¬
lhadores e outros explorados e marginalizados
deste nosso pais. Acreditamos que a verdadeira
democracia está relacionada com a melhoria das
condições de vida do trabalhador, garantindo-lhe
o fim da marginalidade Nos posicionamos contra
qualquer forma de machismo, chamamos a aten¬
ção dos trabalhadores, sindicatos, intelectuais,
estudantes e todos os militantes progressistas
para os preconceitos que fazem com que mu¬
lheres, negros, homossexuais, índios, etc. fiquem
alijados ou vistos de forma paternalista pelos
"Homens Brancos”. Não basta modificar a or¬
dem econômica de uma sociedade se não é
realizado paralelamente um trabalho de ques¬
tionamento da ordem moral vigente. Se até o
momento o homem foi levado a se adaptar a
"normas c leis” preestabelecidas e a situação não
melhorou nada, acreditamos que estas "normas e
leis” podem ser mudadas e adaptadas ás reali¬
dades eman entes do homem. Nos posicionamos
contra a separação entre homossexuais mas¬
culinos e femininos. Acreditamos que este an¬
tagonismo é o resultado de uma sociedade onde
predomina o individualismo e. que por sua vez
serve para garantir a desunião e o enfraqueci¬
mento dos grupos marginais. Somos uma força,
devemos estar unidos e conscientes. Alertas con¬
tra o falso liberalismo que nos mantém como
doentes ou segregados em guetos. Em Belo
Horizonte é grande o número de homo conscien¬
tes, é grande o número de heteros que nos estão
apoiando e sabemos que os Hitlers ou Stalins
terão mais trabalho para nos destruir. Aos nossos
amigos do Lampião comunicamos que nossa
HÉ1JO J. DALEFI — médico homeopata
_ clinico geral. Rua José das Neves, 89. Fone
521-0999 _ planalto MarxJoars (pela Avenida
Interlagos, até frente Café Solúvel Domlnlum),
São Paulo _ Capital.
Depilação definitiva
STELA
Rosto e variadas parles do corpo
Tratamento. Método: ale-
trocoagulaçáo, com aparelhos
importados, os mais modernos
dos Estados Unidos. Nlo deixa
manchas nem cicatrizes. Ambos
os sexos.
Rio: Largo do Machado,
29/808 _ Fone 265-0130 _ Sio
Paulo: Alameda Franca, 616, s/01
_ Fone 288-5163
Caixa Postal é nf 1720. Gostaríamos que o Jor¬
nal transasse uma coluna onde os vários grupos
de todo o Brasil pudessem manter uma corres¬
pondência. Ainda estamos nos organizando, mas
para o futuro pretendemos garantir a represen¬
tação do 'Lampa" em B.H., por aqui temos
muito trabalho, mas também muita gente dispos¬
ta.
Grupo Terceiro Alo — BH
R — Nono Jornal é de vocês, amigos c amigas
do Terceko Alo. Façam ddc a tribuna de coa-
g raça meu to cora os demais grupos oprimidos que
estão surgindo em todo o Brasil. Lampião precisa
da cooperação de vocês todos, da crttka constante
e do auxRlo também, como leitores stentos e,
principal mea te, como ASSINANTES. E aio
teaham dúvidas: nós. Jantas, é que estamos
fbarado a HUtúrta. (Batucávamos tranquilamen¬
te estas babas quando La Mambaba surge na
redação. Na sua curiosidade animal, velo direto
aa minha direção, leu o que eu escrevia e apos¬
trofou: "Apanhado outra vez pecando contra a
modéstia! A grandüoqtténda é ura vkk> essen¬
cial mente fascista. Pfte Isso aa tua cachola, bicha
obtasa: quem se diz oprimido aio pode falar
como os donos do poder.”)
Venham Todos! ! !
Turma do Lampa, Rafaeltnha, minhas se¬
nhoras, meus senhores, ui!!!, acho que entrei em
discurso errado. Culpada é a emoção que eu sinto
em escrever, desta vez como leitora (troquei de
papéis, viu?). Afinal, colaboradora também tem
seu dia de mingau... Então, atrevo-me a dar um
"ultimai um" ao pessoal assíduo que lê o jornal. A
Yone (aló alô Luca do n? 24, ela existe sim, não é
jogada comercial não) falou e eu abono: os grupos
organizados do Rio estão precisando de homens,
mulheres, de todos que estejam numa de agir e
não de esperar cair do céu. E não é por falta de
caixas postais que vocês vão deixar de escrever
pra gente. O AUÉ tem três, anotem: 16218,
25029 e 65022. Nosso grupo está crescendo e o
pessoal da ala das mulheres é animadíssimo... (é
só se chegar pra comprovar...) Vamos dar até
brindes especiais — Tchan tchan tchan tchan...)
pras cento e cinqüenta primeiras cartas que
recebermos — viu como somos dadivosas?... Por¬
tanto, aproveitem a oportunidade: ao lado da
campanha do Lampião pra conseguir mil assi¬
naturas até agosto, a gente está lançando a nossa,
pra conseguir, até lá, mais mil membros pro nos¬
so grupo, heim, heim?... Afinal AUÉ predsa de
VOCÊ. Venham...
LcilaMíccolis — Rio
R — É Isso ai LeUa, vamos batalhar pra que o
Lampa, o Aué e os outros grupas alcancem os
mil. cem mil, um milhão de homossexuais.
Vamos transformar a quantidade em quaUdade.
A nossa chamada deu certo, e o pessoal já co¬
meçou a fazer as assinaturas, mas ainda não
chegamos lá. Milhões de beijos lampiônicos pra
vocé!
SALVEMOS A
AMAZÓNIA
Pslcoterapla Eilslenclal — Terspla cog-
fiHlvoaetual
Ari.stóie!e\ Ritdriyues — Piicologo CRP.
05.2512
Fone* 286-9561 e 226-7147
Rus Barão de l ucena 28 e 28-A — Botafogo
Praça Saeat Pena, 45,1o. 204
LAMPIÀO da Esquina
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APPAD
associação paranaense
da parada da diversidade
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Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE
CARTAS
NA MESA
“Bobos da Corte”
Acompanho vocês desde o primeiro n®.
Parabéns pelo excelente jornal que vocês fazem.
Quero parabenizar, aplaudir mesmo o Sr. An¬
tônio Carlos Moreira, por sua matéria “Bichices
na TV! Plim, Püm!” (lampião 23). Em um bate
papo com amigos homossexuais a discussão se
tornou um tanto “quente" quando um deles disse
que nflo via nada de mais nessa bichice toda, e
que chega a ser até tonitinho" ver no video, nos
anúncios, out-doors e tudo mais, aquela des-
munhecaçflo toda. E que tudo isso é resultado de
uma “abertura" que estamos tendo agora, pois
há pouco tempo atrás isto seria um escândalo,
blá, blá, blá... Pôü! Disse eu. Que abertura é es¬
sa? S6 se for uma certa abertura que permitiu
teatrôlogos. escritores, publicitários, etc..., que
com medo ou incapacidade para assumirem seu
homossexualismo, descarregam no seu trabalho a
imagem daquilo que gostariam de ser. Mas é uma
imagem distorcida do homossexual. É o ‘toboda
corte" realmente. O que é mais incaível: virou
moda. É até chique dizer que se tem um ‘'amigo”
homossexual. É lamentável saber que *tores,
como os citados na matéria e outros tantos (as¬
sumidos ou nflo) se prestam a tais coisas. Mas é
ainda a nossa realidade. Nflo pensem que sou con¬
tra a desmunhecaçâo, a bichice, o 4tfrescor”, sou
contra o uso que fazem disso, que distorce cada
vez mais a imagem do homossexual. Concordo
com o autor quando se refere ao episódio “O
Qime do Castiçal” como sendo um marco no
sentido de mostrar o homossexualismo com
pureza e realismo, sem toda essa “fantasia” que
todos os textos para teatro mostram, exploram. É
sempre a mesma coi$a: uma ou várias bichinhas
fazendo palhaçadas no grande circo. É isso ai.
Parabéns mais uma vez e espero que essa, assim
como outras tantas matérias do nosso Lampa
possa "abrir" um pouco a mentalidade dos nosso6
companheiros. Um abraçflo a todos pelo 2?
aniversário e continuem assim, firmes, iluminan¬
do-nos.
César Roberto Tank — Sâo Paulo.
R — Em primeiro lugar César, ficamos
emocionado*, com o carinhoso abraçflo de aniver¬
sário, vamos brigar paia chegar aos 48 com a
mesma garra de sempre. Quanto as bichinhas que
entram numa de achar que é multo bonitlnho ver
os vtadoa desmunhecarem na TV, frito ‘bobo* da
Corte" e idiotas, baixe o pau nelas, pois é isso que
elas merecem. O Lamplônico que escreveu a
matéria se encheu todo, ficou todo bobo com seus
elogios e agradece fazendo uma ressalva, pois se
considera muito jovem, ainda, para ser chamado
dc Sr. Senhorita lhe cabe melhor.
Pezinho Bonito
Oi gente nova, dizer que eu curto o “Lam-
piflo” até excede, né •; (senão eu nflo estaria aqui
nessa carta querendo papo). Pra botar uns refor¬
ços ai nas afetividades de vocês lá vai: o jornal e
vocês sflo um barato, uma luz (nflo fosse Lam¬
pião). O que vocês já devem ter feito de bem pela
cuca de um bando de gente como a gente e outras
gentes nflo dever dar p'ra contabilizar. E ir p*ra
frente, de cabeça erguida e muita força p’ra es¬
pantar os medos; estar unidos ajuda pacas.
Graças a Deus (deus?) que estamos perto do ano
2.000, perto de 2.001 (A Odisséia do Corpo). Pas¬
semos ao papo. Eu ja notei que um assunto que o
pessoal parece evitar por ai é o da família do
homo. Qual é? Vocês acham que ainda nflo
chegou o dia de rnfrentar as nossas casas, de en¬
trar no sacrosanto recinto dos lares heteros? (!?)
onde nascemos, somos criados e colocad >s p‘ra
vida? De vez em quando vocês falam de heteros,
(ai que eu disse a palavra no lugar errado) quero
dizer homos, que sflo arrastados a tratamentos
psiquiátricos “Corretivos”; vocês falam em que
somos pessoas afetivas que procuram dar uns aos
outros o carinho que nflo tivemos em nossos
lares... Tudo bem. Evidente que a gente lê o
revide a sociedade machista. Mas que tal uma
palavrinha sobre as peças que arrastam nossos
ir m Aos p’ros tratamentos p*ra filho de peixe
deixar de ser peixinho? Que tal falar das peças
que nos tornam tflo carentes e na maioria das
vezes cometem a abominaçflo dc nos rejeitar por¬
que somos o reflexo de uma das facetas do casal
hetero que nos gera, faceta que o dito casal aves¬
truzmente rejeita, só p’ra ficar bem com parentes
e vizinhos. É... A discriminação parece que
começa em casa, né? Eu acho que seria uma boa
a gente lembrar a esse pessoal que a gente nflo é
filho dc chocadeira. Nflo, mesmo! Somos filhos de
casais Macho vs. Fêmea, como é inevitável só que
esses machos e fémeas que discriminam a gente
parecem querer ignorar isso, enquanto trocam
beijinhos e respeito com os pobrezitos de nuestros
papás (é, na casa da gente parece que tende a
pintai* dois papás, ou duas mamãs, apesar do
sexo dos integrantes da parceria ser diferente um
do outro), pobrezitos que por alguma hipocrisia
que hteros caretas devem saber explicar direi-
tinho,. aceitam esses beijinhos e respeitos junto
com a intolerância com que seus rebentos sflo
tratados. Isso é assunto, Ou nflo é? Ou será que
tamos numa de 'Youpa suja se lava em casa”. Es¬
se ditadinho é da laia do ‘Nego quando nflo
borra na entrada, borra na saída”, ou seja: é
ditadinho pra encurralar mesmo. Eta avestruzada
braba. Qual é? O pessoal nflo gosta de ver no es¬
pelho o reflexo de seus lados ocultos? Esse pessoal
tá precisando é de coragem e humildade pYa se
deparar com outras possibilidades de ser do bicho
humano e transar elas respeitosamente que nem a
gente andou fazendo com “cr outros” por esses
séculos afora de discriminação. Como é que é?
Será que a gente nflo pode dar uma transada
crítica nesses heteros que geram, educam e fazem
a gente p’ra depois ficar emburrado porque deu
viado na cabeça? Nflo queria, nflo jogasse no 24.
O problema da gente nflo é de ser. O problema da
gente é güentar esses chatos que ficam a se mas¬
turbar mentalmente acreditando que a gente é al¬
gum fenômeno da natureza ou entfto uma vitima
das más companhias. Favor ler essa última frase
com a dose de ironia que ela merece. Abraços e
beijos fraternos pYa vocês todos, especialmcnte
p’ra quem tiver pezinho bonito, beijoca sensual
no dedflo do pê direito. Isso pYa nflo dizer que eu
nflo falei de flores . À da gente . Tim ! Tim !
G. de Castro — Rio
R — Sua carta tocou fundo no problema mais
sério das bonecas e que mais gera neuras na
praça: o sentimento de rejeição pela famflia.
Olha, boneco, sflo poucas as bichas que conse¬
guem se libertar dessa terrtvel sensaçáo de solidão
e sofrimento resultante da rejeição familiar, e são
poucos, os que, como você, conseguem vrncer es¬
se sentimento a ponto de poder falar tão clara e
debochadamente sobre ele. É isso ai. O movimen¬
to de desopressão do homossexual deve ter esse
tema como um dos primeiros para os debates
futuros. Temos que limpar a nossa cuca da mal¬
dita sensação de doença Imposta pela sociedade
früorática judako-crístá. Não nos aceitam como
somos? Pior para eles, pois terão de engolir um
nabo gigantesco. E agora passemos ao que é bom :
Você faz género gatão ou gatinho? Porque tem
gente aqui que para todos as tipos... E esse ne¬
gócio de pé bonito botou em rebordosa a redação,
podes crer. A gente curte adoidado todos os
prazeres requintados.
Cacá Sumiu
Oi Lampião. Tudo bem? Nflo sei se essa é a
melhor maneira de tantar encontrar alguém, mas
é a única que me restou. Talvez nem todos, ou
melhor, quase ninguém vai lembrar, mas no
Lampiflo n? 14 havia uma carta intitulada “O
drama do Cacá", eu li, me emocionei e entrei em
contato com essa pessoa. Dai passei a me corres¬
ponder com Cacá, desde aquele mês de Julho,
minha vida se transformou. Cacá é a pessoa mais
maravilhosa desse mundo, ela conseguiu me
devolver toda esperança de viver, sim, porque a
vida ia me levando e aprontando coisas que eu
nflo conseguia entender porque era tudo ruim
mas pintou essa pessoinha linda que me ergueu,
só que agora estou novamente no chflo, no mais
baixo chflo possível, tudo porque Cacá sumiu faz
um més e alguns dias. Nunca pensei que eu fosse
amar alguém de longe (S.P.), nflo imaginei ser
possível, porque nós nflo nos conhecemos pessoal¬
mente o que nflo foi barreira para o amor tomar
conta de mim, eu me dei ao máximo possível
numa relaçflo entre pessoas distantes e ela tam¬
bém, digo isso por causa das cartas que trocamos
e nflo me deixa pensar que foi um sonho. Hoje
restam cartas, dois retratos, um cachorrinho de
pelúda, a lembrança de alguns telefonemas e
uma angústia imensa. Nflo sei o que as pessoas
irflo pensar mas gostaria de ter essa carta pu¬
blicada como uma esperança de saber alguma
coisa sobre ela, uma garota de uma força incrivel¬
mente estranha e imensa, me fez renascer de um
passado triste, me devolveu a vontade de amar e
me entregar a esse amor. Agora nesse momento
sinto que nada mais é importante, tudo perdeu a
lógica, estou completamente sem açflo, atônita e o
coraçflo está todo machucado. Eu ficaria grata
por qualquer notída recebida porque isso ia me
fazer muito bem.
Beth — Rio
R — Beth querida, não se desespera que Cacá
vai reaparecer. Nós, daqui, fazemos um apeio a
Cacá para que lhe telefone ou escreva imedia¬
tamente.
Não use a fantasia
nal» lhe impõem
Lampião não faz de você um palhaço
LAMPIÃO
da Esquina
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v.rivy«$
eágina 19
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Prof. Dr. Luiz Mott
®5
GRUPODIGNIDADE
ILITERATURÃI
Ao primei ro chofer , Jorge indaga :
— Vocé sabe um randevu aqui por perto?
— Sei . Tem a Luiza, se querem gastar .
— Nio, coisa barata.
— Só mais longe, Pode-se ver. Hoje, sábado,
está tudo cheio, vocês sabem.
— Está bem entáo.
Embarcaram os dois atrás. Afoito, Jòrge cir¬
cunda o pescoço de Eli e o beija com ruído. O
chofer vira-se e seus olhinhos lampejam no es¬
curo:
-Ué?.... -rí.
Aceitando a malícia do chofer, Eli ri também,
a demonstrar que era o ativo e se distraia. Jorge
fica a ponto de cair em pranto de ressentimento.
Mas apenas retira o braço, olhando á frente. Com
a mflo nas coxas de Eli , excita-o. O outro permite
e só o aplaca quando as carícias se intensificam,
machucando-o.
— Aqui tem um — avisa } o chofer.
Descem. Jorge fala: vimos ver se tem lugar,
fique esperando.
Na casa custam a abrir. Vem a madame.
— O que é? Não têm mais meninas. Todas
ocupadas .
— Queríamos um quarto.
— Só tem um, um se arranja. O outro vai ter
que procurar noutra pensão.
— Um. Um chega.
— Mas as meninas cj'»e vocês trazem são de
st.híím idade? Nada tír vrçem |ku i.
Não trazemos.
— Então pra que o quarto?
— Quanto é?
— Mas não tem, filho.
— Quanto é? Vocé disse que tinha um.
— Não tem. Já foi tudo embora. Vou fechar
— e ia mesmo, se Jorge não entrasse.
— Me arranje, por favor, me arranje.
Internato
PAULO HECKER FOLHO
“Internato” é a história de um grande amor homossexual adolescente. A
novela, publicada em 1951, é pioneira no tema, no Brasil, só tendo atrás de si “O
Bom Crioulo” de Adolfo Caminha, escrita no século passado. Paulo Hecker Filhoé
um escritor gaúcho que estreou na literatura aos 22 anos com um “Diário” que
abismou a critica brasileira e portuguesa por sua enorme cultura literária e hu-
manística. “Internato” é a terceira obra do Autor e desta vez serviu para escan¬
dalizar de vez a pacata “Intelligentsia” nacional. Hoje, “Lampiáo” entrega outra
vez ao público brasileiro essa pequena obra-prima de delicadeza e de confiança na
vida tanto tempo escamoteada das prateleiras das livrarias.
— Pra dois homens, não, não.
— Eu lhe pago da mesma maneira.
— Na minha casa não. Aqui não.
— Vá, me arranje.
Mas negando-se sempre, a mulher empurra
Jorge para fora, até conseguir trancar a porta.
Ele põe o dedo na campainha, sem trégua,
ela desliga o registro Algum tempo ainda
_çjtama. seanwndo a rn^deira inuiríinegtte..! r/*-
penfe*. Lü sugere que temem noa tia o*i«e, e*
consegue trazê-lo ao carro, dando ordem pa. a
seguir. ,
O chofer divertia-se. Ouvia a discussão com
a mulher, pois descera do carro por curiosidade,
c divertia-se. Nâo suportando, Jorge interpcla-o:
— Do que é que está rindo? Para com isto!
Sem responder, ele continua. Jorge vai lhe dar
um sopapo na nuca, quando a presença de Eli
capacita-o de que pode estragar tudo, perdendo
aquela oportunidade. Deixa-se cair para trás,
vencido, esforçando-se para dominar o pranto
que quer lavâr aquela ira impotente. E o chofer
ria.
No terceiro randevu. havia um quarto, mas a
_ dona, pelo mooo já suplicante com que Jorge o
Ipede, resolve cobrar cem entzeiros pela noite, cu»
Vcrdos ‘.gpIarwti.^Tia.
Aucutciosarncntc Jorge 'oncorda e vai o
'carro, enquanto Eli entra, sob a inspecção cu¬
riosa, mas não reprovadora da madame.
— Gnqüenta?!
— Ê. — E pelos olhos, com a crueldade dos
que se julgam normais, continuava: — Sei bem
quem tu és, não me enganas.
Jorge lhe espatifaria com gosto a cara. Tal é,
porém, o seu desprezo que não pronuncia uma
palavra. Teria cortado de si um pedaço para se
ver livre daquele sujeito. Mete a mão no bolso e
entrega-lhe a sua única nota.
O chofer examina-a, não crendo na facilidade
com que o golpe pegara. Mas como são sem
dúvida çiqqüenta, alegre- sc
— Precisafido, já sabe....
Ao voltar, a mulher conduz os dois ao quarto,
abrindo as janelas. E já se retirava, com grande
alivio de Jcáge por nada ter exigido adiantado,
quando o chama discretamente: — O senhor
pode vir aqui um momento?
Jorge vai, sabendo do que se trata, na aflição
de que tudo se desfaça.
— Se não se incomoda, pode me pagar agora.
— Depois, não é? — atreve-se a contestar*
dada a delicadeza com que o pedido fora feito.
Mas uma negativa seca corta-lhe a respiração.
— Depois...
— Não, agora.
— A verdade.... é que não tenho os cem
cruzeiros. Dei o que tinha ao chofer. Mas se a
senhora...
— Não pode ser, meu caro.
— ...quiser aceitar este relógio de garantia, —
desatando-o do pulso — tome, tome. Vale se¬
tecentos, e a senhora pode ficar com ele se
amanhã, amanhã mesmo, eu nâo vier trazer o
dinheiro.
— Não. Não e*tou habituada a esses itegódos,
? « # de»**» o quarto ? vacfe foi por concessão
— Fique, fique com ele — quase a obriga a
pegá-lo. Lhe peço que nos deixe aqui esta noite,
esta noite, por amor de Deus .
Sem poder se contrapor àquela urgência, ig¬
norando porque cedia, a mulher resolve ir-se,
ainda a reclamar e levando o relógio.
Jorge volta ao quarto. Enfim, livre do mundo!
do mundo contra o qual lutara tanto aquela
noite, que de certo modo era o resumo de sua
vida, livre, livre de amar! (excerto)
Um Caso de Amor
MARIA LÜCIA DE BARROS MOTT
Recebemos de Mana Lúcia este conto inédito e o publicamos sem mais demora
porque achamos que esta é a hora da mulher falar. Nascida em 1948, escrevendo
desde adolescente, Maria Lúcia é hoje, além de escritora, pesquisadora em his¬
tória. Diz da que seu principal projeto de vida é resgastar a história do oprimido
— - as minorias raciais, sexuais, mulheres e homossexuais. Foi também ceramista e
pintora, mas por este bdo conto temos certeza de que é como escritora que da se
exprime melhor.
Tinha acabado de me levantar. Sal correndo,
meio sonada com a cara amassada e o olho em-
papuçado. O cheiro dela me envolvia toda que
resolvi nâo tomar banho e guardá-lo mais um
pouquinho. Meu cheiro, o cheiro dela, a pre¬
guiça, o calor... foi difícil sair do aconchego dos
abraços na cama mas sal, tomei café na padaria
e, acordei.
Coloco anúncio no jornal, vou á imobiliária,
pago o aluguel, falo com o proprietário, faço
outra proposta e dal, não mudo. Outra casa,
outro bairro*. . e se fosse outra cidade?
O corpo esguio e o andar desenvolto das per¬
nas que atravessavam a rua fizeram que eu
acelerasse o passo c olhasse de frente. Olhos ten¬
sos traços duros c marcados. Corpo leve, ágil .
Ela me olhou, riu (achei que do meu espanto.
Mais tarde contou que foi do meu jdto de andar,
de equilibrista) e disse para eu ter cuidado com o
ônibus na contramão. Do outro lado da calçada
falou da greve dos motoristas, da liquidação do
Mappin . Em frente à Light reclamou da conta de
luz.
Corpo e rosto passaram a não me intrigar
mais. O riso tinha um ar maroto, as frases eram
irônicas e o olhar curioso. Faziam um todo har¬
mônico com os cabelos vigorosos, os dentes
bonitos, os seios pouco marcados e o perfume
gosto (que não consegui identi ficar).
Quantos anos teria? Perto de dnqüenta.
Na esquina, parou no ponto de ônibus, ia para
as Perdizes. Achei que poderia começar pro¬
curando uma casa por lá.
E o bairro, como é o bairro?
Soube dos dias de feira, das ruas de comércio
e dos estudantes da PUC. Contei que era bai¬
larina e que procurava uma casa para abrir uma
escola de dança. Foi como uma senha, o nosso
abracadabra:
BAILARINA!
Foisé, bailarina.
Falou-me então do marido que tinha proibido
seguir dançando. Proibiu dançar, fumar, se pin¬
tar. Reclamava dos joelhos que apareciam por
debaixo da saia ou no divã da sala. Não gostava
da mania que tinha, que dizia que da tinha, de
conversar com qualquer um na rua, na fdra, na
padaria. Não queria Que fosse ao cinema sozinha.
Lia tudo que via, pois, isso ele não se importava,
por que não sabia, nâo conhecia, o valor das
palavras. Nâo entendia nem os gest06. Resolveu
escrever poesias, mas só quando ele nâo estava em
casa por que se estivesse, achava que aquilo era
bobagem, pedia torta de chocolate, um copo'
d’água ou pra comprar cigarros. Nunca teve
filhos. Aprendeu com a mãe a aceitar o pai, o ir¬
mão, depois o marido e foi o que fez, achando que
nâo podia ser de outra forma. ,
Ela desceu do ônibus prometendo me procurar,
um desses dias, quem sabe até voltar a dançar,
afinal o marido andava um pouco mais calmo ul¬
timamente.
Fui eu quem buscou seu olhar. Não havia es¬
quecido do corpo, nem do rosto. Sua imagem es-.
tava muito presente, tinha me visitado duas vezes
em sonho. No primeiro oferecia-me a boca, o seio
e o sexo em troca do prazer que nâo conhecia. No
outro, chamava-me para que juntasse meu corpo
ao dela e sentisse as pulsações do seu coração e as
vibrações do seu corpo.
Lembrou-se de mim como bailarina, havia es¬
quecido meu nome. Eu estava de aiaa nova e ela,
de marido mono. Trocamos endereços (dessa vez
ela me deu o dela), tomamos um suco, e na des¬
pedida, fizemos promessas de um novo encontro.
Na segunda-feira, apareceu na escola,
querendo se matricular, começar a dançar,
naquela hora mesmo, já tinha comprado a malha,
era só mudar a roupa. Pediu p&ra escolher a
música, mexeu nos discos, remexeu as fitas,
aflita. Queria todas, mas não encontrava aquela.
Qual? Tchaikovsky, Ravd?
Não, não. Alguma coisa persa, do oriente.
Dança do ventre?
Não, música guerreira, de libenaçáo.
Capoeira?
Dançou para Xangó, Ogum e Iansã. Quando
tocou para lemanjá, parecia que tinha saldo do
transe, perdeu o ritmo, me chamou para mostrar
o passo. Coloquei-me na frente dela, tentou
seguir minha cadência, segurou minha cintura e
nossos movimentos se harmonizaram. Segurou-
me mais forte, seus seios roçaram minhas costas,
as pulsações de seu corpo lembraram -me o sonho,
estimularam meu desejo (ou o nosso?) e frente a
frente nos beijamos. PYimeiro beijo de amor em
boca de mulher.
APPAD
associação paranaense
da parada da divcr?>idadr
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Centro de Documentação
Prof. Dr. Luiz Mott
GRUPODIGNIDADE